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Marta Marques, da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade de Lisboa, levou a Viana do Castelo uma intervenção que foi, ela própria, um exercício de clarificação. No II Encontro da RALS, a oradora partiu de uma premissa que ecoou discursos anteriores no evento: a literacia em saúde não é uma ilha. É, isso sim, um território que precisa de mapas comuns para ser navegável.
A sua conferência, “Todos os Nomes para Navegar a Saúde”, não se limitou a defender a importância de compreender a informação. Ela questionou a forma como essa importância é operacionalizada. Com um pé na ciência comportamental, Marques argumentou que a literacia é, afinal, uma componente do comportamento. Um componente crucial, sim, mas apenas um entre muitos outros que determinam as nossas ações.
“Pensemos no comportamento de dormir”, sugeriu, num exemplo aparentemente simples. As razões para não cumprirmos as horas de sono recomendadas vão muito além de não sabermos que é importante. Podem ser o excesso de trabalho, uma alimentação inadequada ao final do dia, o turbilhão de pensamentos ou o tempo passado em frente a um ecrã. “A informação, a falta de informação não saber usar informação é um deles”, admitiu. “Mas é mais um dos fatores neste mar de fatores.”
Foi a partir desta perspetiva que construiu o seu primeiro argumento: intervir em literacia sem considerar este ecossistema de determinantes – capacidade, motivação e oportunidade – é como tentar resolver um puzzle com uma única peça. E pegou num caso prático, as campanhas de saúde pública durante a pandemia. Lembrou a mensagem genérica do Reino Unido no primeiro confinamento: “Esteja alerta, controle o vírus, salve vidas”. O que significa “estar alerta” na prática? O grupo de ciência comportamental britânico propôs uma alteração subtil, mas profunda: mudar para “Fique em casa”. Trocar uma abstração por uma ação clara. “Não é só uma linguagem que utilizamos. A linguagem tem que ser traduzida em ações.”
Aqui, a apresentação fez uma curva. Se a complexidade dos comportamentos exige intervenções multifacetadas, como é que os profissionais no terreno, ou os investigadores, podem sequer saber do que falam uns com os outros? Marta Marques introduziu então o que talvez seja o cerne do problema: a Torre de Babel da ciência e da prática em saúde.
Falou da “Jingle-Jangle Fallacy”, um conceito que descreve o ruído que impede o avanço do conhecimento. O “jingle” é usar a mesma palavra para coisas diferentes. “Self-management”, por exemplo, pode significar desde uma simples sessão de educação até um complexo programa de monitorização. O “jangle” é o oposto: usar termos diferentes para a mesma coisa. “Confiança” e “autoeficácia” são por vezes usados como sinónimos, outras vezes como conceitos rivais, dependendo da teoria ou do autor.
“Quando nós temos fragmentação e complexidade de linguagem, que é o que nós temos… não nos entendemos com a linguagem”, afirmou. Esta confusão não é um mero exercício académico. Tem consequências reais: impossibilidade de replicar estudos, dificuldade em sintetizar evidência e, no fim da cadeia, a incapacidade de dar orientações claras a uma escola ou a um hospital que queira implementar uma intervenção eficaz.
A solução que apresentou, e na qual tem trabalhado com colegas internacionais, soa quase a ficção científica para as humanidades: o desenvolvimento de ontologias. Sistemas de classificação computacionais onde cada entidade – “educação”, “monitorização”, “formação de objetivos” – tem uma definição única, inequívoca e sem sobreposições. É como criar um dicionário universal e impermeável a ambiguidades.
“Nós temos 282 técnicas de mudança comportamental”, revelou, referindo-se a uma dessas ontologias. “Temos 23 técnicas só focadas em aspetos relacionados com os nossos objetivos.” A vantagem? Se um investigador descreve a sua intervenção usando estes códigos, qualquer colega, em qualquer parte do mundo, saberá exatamente o que foi feito, sem margem para interpretação. É a promessa de uma linguagem comum para, finalmente, acumular evidência de forma sólida.
O percurso da palestra de Marta Marques foi, portanto, do particular para o sistémico. Começou nos comportamentos individuais, como dormir ou vacinar-se, e terminou na arquitetura conceptual que sustenta – ou deveria sustentar – a investigação. A sua mensagem final foi um apelo à humildade disciplinar. A ciência da literacia em saúde, com o seu foco no conhecimento e na cognição, é fundamental. Mas não pode atuar sozinha. Precisa de se entrelaçar com o vasto leque de estratégias da ciência comportamental.
E, para que essa colaboração seja fértil, é preciso primeiro que todos concordem com o nome das coisas. Porque navegar a saúde, seja a nível individual ou coletivo, exige mapas que todos consigamos ler.
HN/AL/MMM



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