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No II Encontro de Literacia em Saúde, que decorreu em Viana do Castelo no passado fim-de-semana, Rosinda Costa, da ULS do Alto Minho, trouxe ao painel “Ambientes Promotores de Literacia em Saúde” uma perspetiva que desafia a convenção. Enquanto muitos oradores se concentravam nas estratégias dirigidas à comunidade, ela insistiu num ponto frequentemente negligenciado: a literacia em saúde começa nos próprios serviços de saúde. A sua intervenção partiu de um princípio basilar – não se pode promover efetivamente a saúde numa comunidade quando a organização responsável por essa promoção não constitui, ela própria, um ecossistema saudável.
A oradora começou por referir o plano nacional de saúde, mas rapidamente orientou a discussão para a realidade operacional das unidades de saúde. Como é que se alinha a prática interna do dia a dia com as ambições estratégicas definidas nos documentos orientadores? A resposta, sugeriu, exigia uma inversão de prioridades. A missão nobre de “promover a saúde na comunidade” perde todo o sentido quando os alicerces da organização mostram fragilidades. “Não podemos ser o pilar da saúde da nossa população se os nossos próprios alicerces estiverem visualizados”, afirmou, numa expressão que capturava o cerne do seu raciocínio. Para Rosinda Costa, pedir à comunidade que cuide da sua saúde mental ou que adote estilos de vida saudáveis, sem que a organização dê o exemplo, configura uma contradição fundamental que mina a credibilidade de qualquer intervenção.
Deste raciocínio emergiu o conceito central da sua apresentação: “cuidar de quem cuida”. A oradora foi clara ao distinguir esta abordagem de um mero programa de bem-estar laboral. Tratava-se, na sua visão, do “primeiro passo da literacia em saúde”. A fundamentação era pragmaticamente clara – um profissional que se sinta apoiado, com a sua capacidade de cuidado preservada e valorizada, dispõe daquela “disponibilidade cognitiva e emocional” necessária para estabelecer uma comunicação clara e empática com os cidadãos. Esta conexão, aparentemente simples mas estrategicamente vital, transforma o investimento no bem-estar interno de uma mera função de recursos humanos para uma “estratégia deliberada de saúde pública”.
Na prática, segundo a explicação detalhada que foi apresentada, esta filosofia organizacional materializa-se em projetos concretos. O “Acompanhado para Melhor Entregar”, por exemplo, foca-se no acompanhamento de profissionais ausentes por doença, procurando melhorar os processos de reintegração e compreender as causas subjacentes às ausências. O “Opção Cuidar Mais” utilizou ferramentas digitais para avaliar riscos psicossociais de forma estruturada, permitindo uma intervenção mais direcionada. A oradora mencionou ainda a monitorização do ambiente físico de trabalho como exemplo do cuidado com as condições básicas que suportam o bem-estar dos profissionais.
Contudo, Rosinda Costa foi além destas iniciativas formais, destacando as ações que transcendiam o formalismo dos planos de ação. Falou da “casa de pessoal” como dinamizadora de uma cultura de bem-estar genuína, descrevendo aulas de pilates e dança que funcionavam menos como exercício físico e mais como momentos de “conexão, descompressão e saúde social”. Referiu o “Pessoal do Equilíbrio”, onde os colaboradores trocavam produtos hortícolas, promovendo a alimentação saudável de forma orgânica e colaborativa. As festas de Natal, tanto para profissionais como para os seus filhos, foram apresentadas não como meros eventos sociais, mas como gestos simbólicos que reconhecem a globalidade do profissional, incluindo o seu contexto familiar.
Questionando-se sobre os resultados desta orientação, a oradora evitou promessas grandiosas ou estatísticas espetaculares. Em vez disso, descreveu um retorno mais subtil mas palpável: profissionais que se sentiam “equidades”, com maior disponibilidade mental e emocional. E esta disponibilidade, insistiu, traduz-se diretamente na capacidade de “praticar empatia, usar linguagem clara e cocriar soluções de saúde em conjunto com o cidadão”. O ecossistema interno saudável revela-se, assim, o alicerce indispensável para uma ação exterior mais eficaz e genuinamente centrada nas necessidades das pessoas.
No final da sua intervenção, Rosinda Costa lançou um desafio crítico. Muitas destas iniciativas, reconheceu, dependem ainda do “esforço de voluntariado” e de “projetos pontuais”. Questionou se não seria tempo de elevar esta prioridade ao nível estratégico da instituição, criando uma área específica dedicada ao cuidado dos profissionais. Esta institucionalização permitiria “sair da esfera do voluntarismo e entrar na do compromisso institucional”, tornando a filosofia do cuidado “proposta e sustentável” a longo prazo.
A terminar, a oradora não ofereceu soluções definitivas ou receitas universais, mas antes lançou um repto. Uma organização com elevada literacia em saúde é, antes de tudo, “um ecossistema que respira bem-estar de dentro para fora”. O cuidado que a comunidade recebe estará sempre limitado pela saúde interna de quem o presta. Uma conceção aparentemente simples, que exige, contudo, uma reavaliação profunda de como se conceptualiza e operacionaliza a promoção da saúde nos serviços que servem as populações.
A apresentação deixou a sensação de que, por vezes, as respostas para os desafios complexos da saúde pública podem começar por gestos simples – cuidar de quem cuida – mas que estes exigem mudanças estruturais profundas para se tornarem efetivos. Mais do que um conjunto de projetos, o testemunho da ULS do Alto Minho sugere uma mudança de cultura, um reposicionamento do cuidado dos profissionais como alicerce fundamental ao invés de acessório na missão de servir a comunidade.
HN/AL/MMM



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