Anatomia Patológica em Portugal: O Pilar Invisível do Diagnóstico e da Medicina de Precisão

11/12/2025
No contexto do Dia da Anatomia Patológica, celebrado a 12 de novembro de 2025, Carla Bartosch, Presidente da Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica, partilha uma reflexão aprofundada sobre o papel essencial desta especialidade médica no diagnóstico e tratamento oncológico em Portugal. Nesta entrevista exclusiva, Carla Bartosch destaca como a anatomia patológica é o alicerce da certeza diagnóstica, sublinhando a importância da integração da patologia molecular e da digitalização no reforço da precisão, rapidez e acessibilidade dos diagnósticos. Aborda ainda os desafios enfrentados pelo Serviço Nacional de Saúde devido à carência de especialistas e apresenta uma visão estratégica ambiciosa para garantir um serviço robusto, moderno e equitativo, capaz de responder às necessidades da população portuguesa nas próximas décadas.

HealthNews (HN) – A Anatomia Patológica é frequentemente descrita como a “especialidade do diagnóstico”. Pode explicar, de forma concreta, por que razão a maioria dos diagnósticos clínicos, em particular em Oncologia, depende do trabalho do anatomopatologista para ser definitiva?

Carla Bartosch (CB) – A Anatomia Patológica é uma especialidade médica focada no diagnóstico através do estudo macroscópico, microscópico e molecular, dos tecidos e células. Desta forma, o médico anátomo-patologista confirma, caracteriza e quantifica a doença nos tecidos obtidos em biópsias e cirurgias. Em particular na Oncologia, praticamente todos os diagnósticos definitivos dependem de nós. A suspeita do diagnóstico de cancro surge na maioria das vezes com a história clínica (os sintomas e sinais da doença) e resultados dos exames de imagem (por exemplo Rx ou TAC), mas é o anatomopatologista quem confirma se uma lesão é maligna e qual o subtipo tumoral. Ou até o contrário, por vezes há suspeita de uma lesão ser maligna e o anátomo-patologista esclarece que é benigna. O anátomopatologista é quem literalmente vê o tumor através do seu microscópio.

Mais ainda, no caso das peças cirúrgicas, avaliamos as margens, ou seja, dizemos se o tumor foi completamente removido, e também, quantificamos até que ponto o tumor se estendeu (aquilo que chamamos estadiamento).

Podemos, de facto, dizer que a Anatomia Patológica transforma a suspeita clínica na certeza diagnóstica.

(HN) – Como é que a análise de uma amostra tecidular ou celular por um anatomopatologista vai além do diagnóstico e influencia diretamente a definição do prognóstico e a seleção do tratamento mais eficaz para um doente oncológico?

(CB) – O relatório anatomopatológico não serve apenas para dizer “é cancro” ou “não é cancro”. Ele define o prognóstico e a terapêutica. Através da morfologia e de testes complementares como a imuno-histoquimica e genética, conseguimos identificar fatores de risco, como o grau histológico, a invasão linfovascular, o índice proliferativo, etc., que influenciam a probabilidade de recidiva. Além disso, avaliamos biomarcadores preditivos (como por exemplo o HER2 no cancro da mama, ou o EGFR no cancro do pulmão, e muitos outros) que indicam se o doente beneficiará de terapêuticas-alvo, ou de imunoterapia. O anatomopatologista desempenha, portanto, uma peça central na chamada medicina de precisão, que permite selecionar o tratamento certo para cada doente de forma individualizada.

(HN) – A Patologia Digital e a Inteligência Artificial estão a transformar a prática. De que forma é que a digitalização de imagens e os algoritmos de IA podem tornar o diagnóstico mais preciso, rápido e acessível em Portugal, especialmente em regiões com menos especialistas?

(CB) – A Patologia Digital representa uma verdadeira revolução. Conseguimos transformar lâminas em imagens digitais de alta resolução, que podem ser partilhadas em segundos entre hospitais e especialistas. Isso significa telepatologia (o anátomo-patologista pode trabalhar à distância), segunda opinião rápida e, mais importante, permite uma maior equidade no acesso a diagnósticos de qualidade, mesmo em regiões com menos anátomo-patologistas. Através deste trabalho à distância em tempo real, podemos garantir a qualidade do diagnóstico de um centro de referência em qualquer ponto do país.

A Inteligência Artificial vem acrescentar a isto uma nova dimensão de eficiência: podemos usar, nestas imagens digitais, algoritmos treinados para identificar áreas suspeitas (por exemplo, pequenos focos de carcinoma numa biopsia prostática), contar mitoses ou quantificar biomarcadores. Estes algoritmos ajudam-nos a ser mais rápidos e mais consistentes. Não substituem o especialista, mas ampliam a sua capacidade e precisão.

(HN) – A Patologia Molecular tornou-se um pilar da oncologia moderna. Qual é a importância da determinação de biomarcadores específicos no tecido tumoral para guiar as terapêuticas-alvo e a imunoterapia, e como está Portugal a acompanhar esta evolução?

(CB) – Hoje, para tratar um doente com cancro temos de compreender a biologia do tumor. A Patologia Molecular identifica as alterações genéticas, epigenéticas ou proteicas que determinam o comportamento do tumor e a sua resposta ao tratamento. Graças à caracterização de biomarcadores específicos, conseguimos não só aperfeiçoar o diagnóstico, como também indicar qual o tratamento com muito maior probabilidade de sucesso e poupar o doente a tratamentos ineficazes.

Portugal tem alguns centros com grande competência nesta área e que já integram a patologia molecular na prática clínica de rotina. No entanto, ainda há muita assimetria no acesso. E quando falo de acesso, refiro-me é claro ao acesso dos doentes a estes biomarcadores, mas também primáriamente o acesso dos próprios médicos anátomo-patologistas às técnicas moleculares. É essencial que o especialista tenha ao seu dispor as técnicas necessárias para efectuar um diagnóstico com qualidade.

Gostava de introduzir aqui um conceito fundamental, mas ainda pouco falado: o “diagnóstico integrado”. Consiste tão simplesmente em juntar e interpretar todos os resultados do exame (por exemplo histologia, imuno-histoquimica, genética, etc) para um diagnóstico anátomo-patológico completo.  Em Portugal, frequentemente estes resultados são pedidos a laboratórios diferentes, interpretados por médicos diferentes e isoladamente. É essencial que esta integração seja feita pelo anátomo-patologista, pois é ele que observa diretamente o tumor e melhor interpreta as alterações.

O que quero dizer é que a Patologia Molecular tem de estar integrada na Anatomia Patológica para garantir a qualidade. Não pode ser uma prática fragmentada.

(HN) – Para além dos benefícios clínicos evidentes, de que modo é que o investimento na modernização da Anatomia Patológica – com laboratórios melhor equipados e integração de dados – pode, a médio prazo, representar uma poupança de custos para o Serviço Nacional de Saúde?

(CB) – Investir em Anatomia Patológica é investir na sustentabilidade do SNS. Um diagnóstico correto e completo à primeira, evita tratamentos errados, exames repetidos e atrasos no tratamento, tudo isto representa custos muitíssimo elevados.

Para tal é preciso investir na modernização tecnológica, na implementação e generalização do acesso a técnicas moleculares, em laboratórios automatizados, com rastreabilidade total, digitalização de processos e integração digital de dados. Assim, melhoramos a eficiência, reduzimos desperdício, diminuímos os tempos de resposta e aumentamos a segurança. A médio prazo, isso traduz-se numa poupança significativa, porque permite diagnósticos corretos mais rápidos, seguros e uniformes em todo o país.

A título de exemplo, refiro um estudo recente da APIFARMA que demonstrou que o investimento em testes de diagnóstico em oncologia tem um retorno social e económico elevado: por cada euro investido obtém-se cerca de 11,3 € no cancro da mama, 10,4 € no cancro da próstata, 5,4 € no cancro do pulmão e 5,7 € no cancro colorretal. Além disso, apesar de influenciarem até cerca de dois terços das decisões médicas, os testes diagnósticos representam em Portugal apenas cerca de 1,5 % das despesas em saúde.

Estes números reforçam a ideia de que investir em diagnóstico, não é apenas uma questão clínica, mas também um investimento económico que gera retorno para o sistema de saúde.

consultar os dados aqui

(HN) – É público que existe uma carência crítica de médicos anatomopatologistas no SNS, com um envelhecimento acentuado da força de trabalho. Qual é a perceção da Sociedade que preside sobre as consequências mais imediatas deste problema para a subespecialização e para os tempos de espera dos doentes?

(CB) – A situação é preocupante. Temos atualmente um número insuficiente de anátomopatologistas e com uma geração muito envelhecida perto da reforma, a capacidade de resposta do SNS vai cada vez mais diminuir. As consequências já são visíveis na nossa prática: tempos de espera mais longos, sobrecarga das equipas existentes e frequente externalização dos exames para o sector privado.

São questões que não são mediáticas. Desconheço que haja quantificação publica dos tempos de espera dos exames anátomo-patológicos. Mas os doentes sentem as consequências no dia a dia: é o constante adiamento da decisão ou da consulta porque o “seu exame ainda não está pronto”.

A sobrecarga das equipas é óbvia, num levantamento recente efetuado pela nossa Sociedade deparamo-nos com situações em que temos Serviços de Anatomia Patológica com apenas 1 ou 2 anátomo-patologistas, que por vezes até dão o apoio a vários hospitais.

Esta escassez também limita a subespecialização e a inovação. Uma equipa insuficiente não consegue ter anátomo-patologistas subespecializados em determinadas áreas, uma condição hoje em dia essencial para a qualidade do diagnóstico. (Explicando de uma forma muito básica: imaginemos que num hospital só havia 3 médicos para tratar todos os doentes; se decidissem subespecializar-se por exemplo em ginecologia, urologia e pneumologia, não haveria quem soubesse tratar as restantes doenças; logo forçosamente para o hospital funcionar têm de ser clínicos gerais e saber um pouco de tudo.)

Sem diagnóstico de qualidade, o sistema de saúde fica sem rumo.

(HN) – Perante o duplo desafio da revolução tecnológica e da escassez de especialistas, qual é a sua visão estratégica e as prioridades de ação para garantir que, daqui a uma década, Portugal tenha um serviço de Anatomia Patológica robusto e capaz de responder às necessidades da população?

(CB) – A visão é clara: queremos uma Anatomia Patológica moderna, digital, integrada em rede e equitativa.

Isso implica modernizar, com laboratórios equipados, digitalização total e integração com registos clínicos e oncológicos; reforçar recursos humanos, criando mais vagas de formação, promovendo a subespecialização e valorizando a carreira no SNS; e assegurar acesso nacional à patologia molecular e digital, evitando desigualdades regionais.

Tudo isto acaba por estar interligado, se começarmos por modernizar e digitalizar os laboratórios, otimizamos a carga de trabalho, e tornamos a especialidade mais atrativa, captando recursos humanos para o SNS. Neste momento era por aí que delineava a estratégia.

Gostei da sua expressão que “Portugal tenha um serviço de Anatomia Patológica” – porque é mesmo isso, como que haja um único serviço de Anatomia Patológica a trabalhar em rede em todo o país.

O objetivo é simples e ambicioso: que todos os doentes em Portugal, em qualquer hospital, tenham acesso ao diagnóstico certo, no tempo certo, com a mesma qualidade.

 

Entrevista de Antónia Lisboa 

 

2 Comments

  1. Maria de Jesus Martins Peixoto

    Grande especialidade médica, essencial na saúde e no prolongamento da vida das pessoas.
    Parabéns a todos os Patologistas Portugueses.

  2. Maria de Jesus Martins Peixoto

    Parabéns a todos os Patologistas Portugueses.
    Parabéns aos que não abandonam o SNS. A Medicina é uma MISSÃO!

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