Novos fármacos para cancro da mama avançado acentuam dilema no acesso

12 de Novembro 2025

A abundância de novos medicamentos para o cancro da mama avançado, apresentada na conferência ABC8 em Lisboa, coloca um problema ético e financeiro aos sistemas de saúde. Especialistas, liderados por Fátima Cardoso, receiam que o custo elevado e a falta de comparação direta entre terapias possam agravar as assimetrias no acesso a tratamentos entre países e mesmo dentro das próprias fronteiras nacionais.

O ritmo acelerado de inovação farmacológica no cancro da mama avançado (ABC) está a forçar uma revisão profunda dos modelos de financiamento, sob pena de se agravarem as fraturas no acesso aos cuidados. O aviso foi lançado por Fátima Cardoso, presidente da ABC Global Alliance, no encerramento da Oitava Conferência Internacional de Consenso sobre Cancro da Mama Avançado (ABC8), que decorreu em Lisboa.

“A boa notícia é que temos muitos medicamentos e tratamentos novos, incluindo alguns para a doença triplo-negativa. Em muitos casos, estes medicamentos prolongam significativamente a vida”, referiu a oncologista. A contrapartida, explicou, reside no seu preço exorbitante e na ausência de estudos comparativos entre si. “Não há como afirmar que um desses novos medicamentos seja melhor do que outro. Pessoalmente, acho muito difícil acreditar que qualquer governo possa aprovar todos.”

Cardoso projecta um cenário onde a seleção de terapias a comparticipar poderá ser ditada mais pela conjuntura farmacoeconómica de cada nação do que por critérios puramente clínicos. “Isso pode depender da riqueza de cada país, o que inevitavelmente levará a que pacientes em diferentes países, e até mesmo em diferentes partes de um mesmo país, tenham acesso desigual”, sustentou. No seu entender, as agências reguladoras, como a EMA e a FDA, não deveriam aprovar tratamentos com base em benefícios clínicos mínimos, ainda que estatisticamente significativos, sem emitir orientações que auxiliem os pagadores a hierarquizar opções.

O cerne da questão, defendeu, está em evitar que a escolha recaia simplesmente no fármaco mais barato. “Peço que a seleção não seja feita com base no que é mais barato, mas que exista uma discussão em cada país com os profissionais de saúde e com os grupos de doentes.”

O painel da ABC8, que reuniu especialistas internacionais, produziu um conjunto alargado de recomendações de tratamento que procuram responder a este fluxo de novidades terapêuticas. Para o subtipo triplo-negativo, particularmente agressivo, foram endossadas opções como o sacituzumab-govitecan ou o datopotamab-deruxetan em primeira linha, quando a imunoterapia não é viável. O painel emitiu ainda conselhos sobre a gestão de efeitos secundários, que podem incluir diarreia e olhos secos.

Foram também estabelecidas definições atualizadas para a resistência endócrina, baseadas em dados recentes da iniciativa AURORA. “As nossas definições anteriores começaram a ser utilizadas em ensaios clínicos e, por isso, queremos que sejam utilizadas estas definições atualizadas”, justificou Cardoso.

Perante uma série de novos fármacos para o cancro da mama ER+/HER2- que chegaram ao mercado quase em simultâneo – como inavolisibe, camizestrante ou imlunestrante –, a comunidade clínica debate-se com o desafio de os incorporar e sequenciar na prática diária. “Não foram comparados entre si nem avaliados um após o outro”, reconheceu a especialista.

As recomendações abrangeram ainda a medicina de precisão, sugerindo o uso de sequenciamento de última geração para analisar ADN tumoral circulante, embora com a ressalva de que estes testes não devem ser rotineiros sem que exista um tratamento acessível e clinicamente adequado identificado.

Para melhorar a qualidade de vida, o painel considerou que o elinzanetant, recentemente aprovado pela FDA para afrontamentos, pode ser uma opção, sem descurar terapias não farmacológicas. O exercício físico estruturado e adaptado foi igualmente recomendado.

Foi ainda aprovada a nova ABC Global Charter para 2025-2035, um documento com dez metas que visam, entre outros objetivos, melhorar a sobrevivência e a qualidade dos dados em registos oncológicos. Eric P. Winer, diretor do Yale Cancer Center e presidente honorário do evento, enalteceu os “verdadeiramente incríveis” progressos da última década, que permitem que os doentes vivam mais e melhor. “Estamos inclusive a começar a discutir se seria possível criar programas de tratamento que levassem à cura de um subgrupo de pacientes”, adiantou, temperando o optimismo com a noção de que a investigação exige paciência.

As diretrizes consensuais completas da ABC8 serão submetidas para publicação na revista The Breast, com expectativa de que vejam a luz do dia em 2026.

PR/HN

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