Cancros hepáticos e biliares mantêm alta mortalidade em Portugal

13 de Novembro 2025

Os cancros do fígado e das vias biliares figuram entre as doenças oncológicas com maior taxa de mortalidade em Portugal e a nível mundial. Especialistas e a Europacolon alertam para a necessidade de diagnóstico precoce e reforço da prevenção, apontando o consumo de álcool, a obesidade e a falta de rastreio como fatores críticos. A imunoterapia e as terapias dirigidas trazem novas esperanças, mas o silêncio em torno da doença persiste.

Cancros do fígado e das vias biliares continuam a ceifar vidas em Portugal, com uma das mais elevadas taxas de mortalidade oncológica a nível nacional e global. A ausência de sintomas claros nas fases iniciais e a falta de programas de rastreio populacionais explicam parte deste cenário, que médicos e associações de doentes querem ver revertido através de uma aposta clara na prevenção e no diagnóstico atempado.

O Dr. José Presa, hepatologista e diretor do Serviço de Medicina Interna da Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, confirma que o carcinoma hepatocelular tem vindo a aumentar em Portugal. “O consumo excessivo de álcool e o crescimento de casos de doença hepática metabólica associada à obesidade são fatores de risco preocupantes”, refere. Os sintomas, quando surgem, são “inespecíficos”: perda de peso, apetite, aumento do volume abdominal ou icterícia.

Apesar dos avanços nos meios de diagnóstico, como a tomografia computorizada e a ressonância magnética de alta resolução, e da incorporação da imunoterapia nos tratamentos, os desafios mantêm-se. “É essencial que os profissionais de saúde reconheçam a cirrose hepática e incluam os doentes em programas de rastreio semestral”, defende Presa. A adesão dos doentes e a capacidade do sistema para garantir esse acompanhamento são igualmente críticas.

Do lado dos tumores das vias biliares, o Dr. Nuno Bonito, diretor do Serviço de Oncologia Médica do Instituto Português de Oncologia de Coimbra, descreve uma realidade rara, mas agressiva. “A ausência de sinais específicos nas fases iniciais dificulta o diagnóstico precoce”, admite. Sintomas como icterícia progressiva, prurido, dor abdominal, cansaço extremo ou perda de peso inexplicada devem motivar avaliação médica urgente.

Bonito reconhece avanços recentes, nomeadamente a introdução da imunoterapia em combinação com quimioterapia, que melhorou a sobrevida em doentes com colangiocarcinoma avançado. A identificação de mutações genéticas específicas, como as relacionadas com a IDH1 e o FGFR2, permitiu ainda o acesso a terapias dirigidas, com impacto positivo na qualidade de vida.

Já o presidente da Europacolon, Vítor Neves, alerta para a “consciencialização muito limitada” em Portugal sobre estes cancros. “O diagnóstico tardio, a baixa literacia em saúde, o apoio psicossocial insuficiente e as desigualdades no acesso a equipas multidisciplinares são lacunas graves”, enumera. A associação disponibiliza serviços como a Linha de Apoio ao Cidadão, apoio psicológico, consultas de nutrição e suporte jurídico.

Neves apela ainda às autoridades de saúde para que priorizem os cancros digestivos nas estratégias nacionais, reforçando a prevenção, o diagnóstico precoce e o acesso a tratamentos inovadores. Aos profissionais de saúde, em particular aos médicos de família, pede que valorizem sintomas e fatores de risco. E à sociedade, recorda que a saúde do fígado também depende de escolhas individuais.

“Nenhum doente ou cuidador deve sentir-se esquecido ou sozinho. O silêncio à volta destas doenças tem de ser quebrado”, conclui.

 

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Para que serve a Medicina do Trabalho?

Nuno Saldanha: Médico especialista em Medicina do Trabalho e Candidato pela Lista A ao Colégio de Medicina do Trabalho; Fellow of the European Board in Occupational Medicine e Pós-graduado em Gestão na Saúde pela Católica Porto Business School

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights