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Cancros do fígado e das vias biliares continuam a ceifar vidas em Portugal, com uma das mais elevadas taxas de mortalidade oncológica a nível nacional e global. A ausência de sintomas claros nas fases iniciais e a falta de programas de rastreio populacionais explicam parte deste cenário, que médicos e associações de doentes querem ver revertido através de uma aposta clara na prevenção e no diagnóstico atempado.
O Dr. José Presa, hepatologista e diretor do Serviço de Medicina Interna da Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, confirma que o carcinoma hepatocelular tem vindo a aumentar em Portugal. “O consumo excessivo de álcool e o crescimento de casos de doença hepática metabólica associada à obesidade são fatores de risco preocupantes”, refere. Os sintomas, quando surgem, são “inespecíficos”: perda de peso, apetite, aumento do volume abdominal ou icterícia.
Apesar dos avanços nos meios de diagnóstico, como a tomografia computorizada e a ressonância magnética de alta resolução, e da incorporação da imunoterapia nos tratamentos, os desafios mantêm-se. “É essencial que os profissionais de saúde reconheçam a cirrose hepática e incluam os doentes em programas de rastreio semestral”, defende Presa. A adesão dos doentes e a capacidade do sistema para garantir esse acompanhamento são igualmente críticas.
Do lado dos tumores das vias biliares, o Dr. Nuno Bonito, diretor do Serviço de Oncologia Médica do Instituto Português de Oncologia de Coimbra, descreve uma realidade rara, mas agressiva. “A ausência de sinais específicos nas fases iniciais dificulta o diagnóstico precoce”, admite. Sintomas como icterícia progressiva, prurido, dor abdominal, cansaço extremo ou perda de peso inexplicada devem motivar avaliação médica urgente.
Bonito reconhece avanços recentes, nomeadamente a introdução da imunoterapia em combinação com quimioterapia, que melhorou a sobrevida em doentes com colangiocarcinoma avançado. A identificação de mutações genéticas específicas, como as relacionadas com a IDH1 e o FGFR2, permitiu ainda o acesso a terapias dirigidas, com impacto positivo na qualidade de vida.
Já o presidente da Europacolon, Vítor Neves, alerta para a “consciencialização muito limitada” em Portugal sobre estes cancros. “O diagnóstico tardio, a baixa literacia em saúde, o apoio psicossocial insuficiente e as desigualdades no acesso a equipas multidisciplinares são lacunas graves”, enumera. A associação disponibiliza serviços como a Linha de Apoio ao Cidadão, apoio psicológico, consultas de nutrição e suporte jurídico.
Neves apela ainda às autoridades de saúde para que priorizem os cancros digestivos nas estratégias nacionais, reforçando a prevenção, o diagnóstico precoce e o acesso a tratamentos inovadores. Aos profissionais de saúde, em particular aos médicos de família, pede que valorizem sintomas e fatores de risco. E à sociedade, recorda que a saúde do fígado também depende de escolhas individuais.
“Nenhum doente ou cuidador deve sentir-se esquecido ou sozinho. O silêncio à volta destas doenças tem de ser quebrado”, conclui.


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