Internamentos sociais disparam 83% em dois anos e custam 95 milhões ao SNS

13 de Novembro 2025

A taxa de internamentos considerados inapropriados – situações que poderiam ser tratadas em ambiente não hospitalar – cresceu quase 20% nos últimos dois anos. Os custos associados a estas permanências dispararam 83%, pressionando a sustentabilidade financeira do sistema de saúde e revelando falhas na articulação com a rede social

Os hospitais portugueses estão a transformar-se, progressivamente, em retaguarda de um sistema social sob tensão. Dados do Barómetro dos Internamentos Sociais de 2025, citados no Relatório de Avaliação de Desempenho e Impacto do Sistema de Saúde (RADIS), revelam um agravamento continuado do fenómeno dos internamentos inapropriados. Estes são casos de doentes que, estando clinicamente estáveis, permanecem internados em camas de agudos porque não existe uma resposta adequada na comunidade ou na rede de cuidados continuados que lhes permita uma alta segura. Entre março de 2023 e março de 2025, a taxa destes internamentos sociais subiu de 10,5% para 11,7%. Em termos absolutos, o número de episódios classificados como inapropriados escalou de 1.955 para 2.342, um aumento de 8% apenas no último ano. A pressão relativa à capacidade instalada é ainda mais visível quando se analisa a taxa de internamentos inapropriados por número de camas, que cresceu de 9,8% para 11,5% no mesmo período.

O impacto financeiro desta realidade é avassalador e desproporcional. Enquanto o volume de internamentos inapropriados cresceu 20% em dois anos, os custos associados dispararam 83%, atingindo um patamar de 95 milhões de euros em março de 2025. Este crescimento, quatro vezes superior ao da taxa de internamento, sugere que se trata de situações de longa duração e alta complexidade, que consomem recursos hospitalares caros e especializados. A distribuição do problema é territorialmente concentrada: as regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Norte são responsáveis por 80% do total destes internamentos, refletindo provavelmente as dinâmicas demográficas e as assimetrias na oferta de respostas sociais. Este cenário é o sintoma mais visível de uma fratura profunda na articulação entre a saúde e a ação social. A insuficiência de lares, unidades de cuidados continuados, redes de apoio domiciliário e outros equipamentos comunitários está a fazer com que os hospitais, desenhados para lidar com patologia aguda, funcionem como um depósito de última linha para situações de carência social e dependência. As implicações para o SNS são múltiplas e graves: perda de eficiência, com camas de agudos bloqueadas por doentes que não precisam desse nível de cuidado; aumento dos tempos de espera para cirurgias e outros internamentos programados; sobrecarga dos profissionais de saúde; e um custo oportunidade colossal, em que milhões de euros são desviados para uma função que não é a dos hospitais, em prejuízo da sua capacidade de resposta à doença aguda. Travar esta espiral exige, de forma incontornável, um investimento decisivo e uma planificação integrada entre o Ministério da Saúde e o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, sob pena de o sistema hospitalar continuar a ser drenado por uma crise que não é, na sua origem, médica.

PR/RADIS/HN

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