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O acesso a um médico de família, considerado a pedra angular dos cuidados de saúde primários, permanece um desafio para uma parte significativa da população portuguesa. O Relatório de Avaliação de Desempenho e Impacto do Sistema de Saúde (RADIS) documenta que, no ano de 2024, 14,5% dos cidadãos inscritos nos centros de saúde não tinham um médico de família atribuído. Embora este valor represente uma melhoria de 1,8 pontos percentuais face a 2023, ele ainda se traduz em centenas de milhares de pessoas sem aquele que é o primeiro e mais importante ponto de contacto regular com o sistema. A fotografia nacional, no entanto, é profundamente desigual. A região Norte apresenta uma situação relativamente confortável, com apenas 2,6% dos seus utentes nesta condição. Pelo contrário, Lisboa e Vale do Tejo mantém uma proporção criticamente elevada de 27,7%, um valor que, apesar de representar também uma evolução positiva face ao ano anterior, evidencia uma fragilidade estrutural na distribuição de profissionais. A dinâmica entre regiões é heterogénea: a Lezíria do Tejo registou a melhoria mais expressiva, com uma redução de 8,6 pontos percentuais, enquanto a região Oeste viu, inexplicavelmente, o seu agravar em 8 pontos percentuais. Casos de sucesso como o Tâmega e Sousa, que atingiu uma cobertura total de 100%, contrastam violentamente com situações como a do Oeste, onde 44,4% da população carece deste enquadramento médico.
Esta distribuição assimétrica de médicos de família é um dos problemas mais persistentes do SNS. As causas são complexas e entrelaçam-se. A concentração demográfica nas áreas metropolitanas, sobretudo em Lisboa, gera uma pressão assistencial que não é acompanhada por uma oferta proporcional de profissionais. Simultaneamente, as dificuldades em fixar médicos em zonas do interior ou em regiões com custos de vida elevados e condições de trabalho mais desgastantes perpetuam os vazios. O envelhecimento da população e o consequente aumento da procura por cuidados primários, mais complexos e frequentes, adicionam uma pressão extra sobre um sistema já tensionado. As implicações desta carência vão muito além da simples falta de um nome num processo. A ausência de um médico de família dificulta dramaticamente a gestão adequada das doenças crónicas, como a diabetes ou a hipertensão, e mina os esforços de medicina preventiva, como a vacinação ou os rastreios. A longo prazo, esta falha no primeiro nível de cuidados tende a gerar ineficiências, desviando os doentes para as urgências hospitalares e para as consultas de especialidade de forma desorganizada e, frequentemente, tardia, com custos humanos e financeiros superiores para o sistema. Políticas robustas de fixação de profissionais, o reforço da formação e a experimentação de modelos inovadores de prestação de cuidados são apontados como caminhos inevitáveis para que a melhoria nacional se reflicta, de facto, numa maior equidade no acesso aos cuidados de saúde de proximidade.
PR/RADIS/HN



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