Rastreios oncológicos: Apenas 25% dos portugueses são convocados para cancro colorretal e do colo do útero

13 de Novembro 2025

Menos de um terço da população elegível recebe a convocatória para participar nos rastreios organizados do cancro colorretal e do colo do útero. A falha no contacto inicial com os cidadãos compromete o diagnóstico precoce e contrasta com a eficácia demonstrada no rastreio da mama

Os programas de rastreio oncológico em Portugal apresentam uma eficácia muito assimétrica na sua capacidade de chegar à população. Um inquérito realizado no âmbito do RADIS expõe falhas gritantes na fase de convocatória para dois dos principais cancros. Apenas 27% das mulheres com mais de 25 anos receberam a convocatória para o rastreio do cancro do colo do útero, e um valor ainda mais baixo, 28%, foi registado para o rastreio do cancro colorretal, dirigido a homens e mulheres a partir dos 50 anos. Estes números contrastam vivamente com a situação do rastreio da mama, no qual 76% das mulheres elegíveis (com mais de 50 anos) foram notificadas para realizar a mamografia. O dado mais revelador, e talvez o mais preocupante, é que a maioria esmagadora dos utentes que recebe a convocatória acaba por aderir ao exame. As taxas de realização são elevadíssimas: 86% para o colo do útero, 79% para o colorretal e 76% para a mama. Isto indica que o principal obstáculo não é a relutância da população, mas sim a fragilidade dos processos administrativos e logísticos que falham no contacto inicial com os cidadãos.

Esta lacuna tem consequências profundas. A falta de rastreios organizados e abrangentes traduz-se inevitavelmente num aumento significativo de diagnósticos em fases tardias da doença. Um cancro detectado tardiamente implica, regra geral, tratamentos mais complexos, mais invasivos, mais dispendiosos para o sistema e com uma probabilidade de sucesso drasticamente reduzida. Esta situação sobrecarrega os serviços hospitalares de oncologia, aumenta os custos globais com a saúde e, acima de tudo, compromete a qualidade e a esperança de vida dos doentes. Portugal comprometeu-se, no âmbito do Plano Europeu de Combate ao Cancro, a criar uma rede de rastreios organizados que cubra pelo menos 90% da população elegível até 2025. Os dados do RADIS sugerem que o país está muito longe de cumprir esta meta para o colorretal e para o colo do útero. Alcançá-la exigirá um esforço concertado para reforçar a identificação e notificação dos utentes, simplificar procedimentos e promover a literacia em saúde, garantindo que a prevenção do cancro não é um privilégio de alguns, mas um direito acessível a todos.

PR/RADIS/HN

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