Salários baixos agravam vulnerabilidade dos portugueses no acesso à saúde

13 de Novembro 2025

Portugal mantém-se entre os países com menores remunerações da Europa, condicionando a capacidade das famílias para suportar despesas de saúde. O 10.º salário médio mais baixo da UE agrava assimetrias no acesso a cuidados e pressiona a sustentabilidade do SNS

A fragilidade salarial em Portugal está a criar um duplo efeito perverso no sistema de saúde: reduz a capacidade financeira das famílias para aceder a cuidados e aumenta a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde. De acordo com o RADIS, Portugal posicionava-se em 2022 como o décimo país com o salário médio mais baixo entre os analisados, uma condição que se mantém estrutural apesar do quarto maior crescimento anual registado nesse ano (+4,7%). A remuneração média portuguesa representa apenas 49% do valor do Luxemburgo e 78% do espanhol, refletindo uma debilidade crónica na capacidade de geração de valor económico. Esta realidade orçamental familiar torna particularmente penosa a fatura dos pagamentos diretos em saúde – que em Portugal são cerca de 10 pontos percentuais acima da média europeia. Muitas famílias veem-se forçadas a adiar consultas, exames ou a optar por não adquirir medicamentos receitados devido a constrangimentos financeiros.

As implicações estendem-se além da esfera individual, contaminando a própria eficácia do sistema público. Cidadãos com menores rendimentos tendem a adiar a procura de cuidados, acabando por recorrer aos serviços de saúde em fases mais avançadas da doença, quando os tratamentos são mais complexos e dispendiosos. O relatório sublinha que salários baixos e desigualdades salariais aumentam a vulnerabilidade socioeconómica, condicionando a literacia em saúde, a adesão a cuidados preventivos e a capacidade de suportar despesas diretas. As regiões do interior e do Norte, onde os salários médios não ultrapassam os 1.075 euros mensais – valor significativamente abaixo da média nacional de 1.220 euros – enfrentam desafios acrescidos nesta matéria. Esta geografia da precariedade financeira sobrepõe-se frequentemente a assimetrias na distribuição de recursos de saúde, criando duplas ou triplas barreiras de acesso. O cenário exige políticas integradas que articulem saúde, proteção social e emprego, reconhecendo que a equidade no acesso aos cuidados de saúde começa muito antes da porta do centro de saúde ou do hospital.

PR/RADIS/HN

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