Produção adicional cirúrgica cresce 51% e representa até 50% da atividade em vários hospitais

14 de Novembro 2025

Os hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) pagaram mais de 627 milhões de euros às equipas que realizaram cirurgias adicionais para reduzir as listas de espera, um montante que aumentou 51% entre 2022 e 2024, segundo dados divulgados pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS).

A IGAS realizou um levantamento transversal e decidiu avançar com auditorias às 39 unidades locais de saúde (ULS) e aos três institutos de oncologia (IPO) sobre a atividade cirúrgica em produção adicional, isto é, realizada fora do horário normal de trabalho das equipas. O objetivo foi determinar se esta produção adicional é um instrumento excecional e complementar à atividade cirúrgica programada ou se tem sido utilizada de forma sistemática e recorrente.

“No período em análise, o valor total a pagar às equipas por realização de atividade cirúrgica em produção adicional interna nas entidades hospitalares do SNS auditadas ascendeu a 627.337.595 euros, tendo-se verificado um crescimento de 51% entre 2022 e 2024”, adiantou a IGAS em comunicado.

A inspeção-geral concluiu que, apesar de este regime estar definido como excecional e complementar à atividade assistencial regular, é utilizado “sistematicamente como instrumento de promoção do acesso a cuidados de saúde” pelos hospitais. Das 42 entidades avaliadas – 39 hospitais e três IPO –, apenas as ULS da Guarda e Loures-Odivelas “não efetuaram contratualização interna com os serviços das várias especialidades”, referiu a IGAS, que salientou ainda que o processo de contratualização interna nos hospitais não segue um modelo transversal e obrigatório.

Em cerca de 70% dos hospitais, a produção adicional representa um peso igual ou superior a 30% da produção total, evidenciando a “utilização sistemática deste instrumento como forma de resposta às necessidades assistenciais não satisfeitas pela atividade regular das unidades de saúde”. Nas ULS Amadora-Sintra, Trás-os-Montes e Alto Douro e de Castelo Branco, a produção adicional cirúrgica representa mesmo mais de 50% da produção total, ou seja, a atividade realizada no âmbito deste regime é superior à atividade regular.

As dez unidades de saúde com maior valor de produção adicional representam 48% do valor total da atividade cirúrgica realizada em produção adicional entre 2022 e o primeiro trimestre de 2025. As áreas da ortopedia e da oftalmologia são as que têm maior peso no valor total a pagar, representando 26% e 21%, respetivamente.

A IGAS destacou que as sucessivas alterações aos diplomas legais que regulam o pagamento da produção adicional no SNS, particularmente da produção cirúrgica, refletem a importância atribuída a este instrumento para promover o acesso a cuidados de saúde. Essa evolução legislativa introduziu critérios de elegibilidade mais exigentes e metas assistenciais vinculativas, “promovendo uma gestão mais rigorosa e transparente desta atividade”. Esta nova abordagem permitiu “reforçar a responsabilização dos conselhos de administração dos hospitais, que passaram a ter um papel acrescido no planeamento, na fundamentação das propostas e na monitorização dos resultados, assegurando a articulação entre os objetivos assistenciais definidos e a afetação dos recursos disponíveis”.

Tendo em conta o caráter exploratório da auditoria, a IGAS não emitiu quaisquer recomendações formais, destinando os resultados a promover o conhecimento e a estabelecer o cronograma de entidades a auditar em processos autónomos.

No final de outubro, o Governo aprovou a criação do novo Sistema Nacional de Acesso a Consultas e Cirurgias (SINACC), que substituirá o Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC), criado em 2004 para gerir as listas de espera. Uma das funcionalidades da nova plataforma será permitir a identificação de situações anómalas, como preços a pagar por cirurgias que não são expectáveis e listas de espera que crescem significativamente num determinado hospital.

lusa/HN

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