Anabela Oliveira: “Doença de Gaucher pode ter um amplo espetro de apresentações”

11/15/2025
Num exclusivo ao HealthNews, a Dra. Anabela Oliveira, especialista em Medicina Interna do Hospital de Santa Maria, esclarece os contornos da doença de Gaucher. Uma patologia rara e hereditária, caracterizada pela deficiência de uma enzima, que provoca a acumulação de gorduras no organismo. Com um amplo espetro de manifestações e um diagnóstico por vezes tardio, a médica detalha os sinais de alerta, o acompanhamento multidisciplinar e os avanços terapêuticos que têm melhorado a qualidade de vida dos doentes

HealthNews (HN) – Em que consiste, na verdade, a doença de Gaucher e por que razão é classificada como uma doença rara e crónica?

Anabela Oliveira (AO) – A doença de Gaucher é uma doença hereditária do metabolismo caracterizada por deficiência de uma enzima, a beta-glicocerebrosidase, que existe nos organelas designados por lisossomas verificando-se uma acumulação de certas gorduras (glicolipídeos), fazendo por isso parte das doenças de sobrecarga lisossomal (DLS).  Afeta aproximadamente 1:50.000 a 1:100.000 pessoas na população em geral sendo por isso considerada uma doença rara que por definição afeta menos de 1 em cada 2 mil pessoas. É uma doença crónica como acontece com a maioria das doenças genéticas que pode ter um amplo espetro de apresentações.

HN – Quais são os sinais e sintomas a que os médicos de família e a população em geral devem estar mais atentos, dado que a doença pode ser de difícil diagnóstico?

AO – A doença pode manifestar-se e ser diagnosticada na idade pediátrica ou mais tarde na idade alta porque tal como acontece com muitas doenças raras tem uma elevada heterogeneidade clínica. 

Existem 3 subtipos principais da doença de Gaucher:

  1. a) Doença de Gaucher tipo1 a forma não neuropática que é a mais prevalente sendo que as manifestações clínicas mais comuns são a anemia, a trombocitopenia e a leucopenia predispondo o doente a infeções e discrasia hemorrágica; faz parte do seu quadro clínico também a esplenomegalia e hepatomegalia assim como a doença óssea com manifestações por vezes graves como seja a necrose óssea, osteoporose e maior propensão a fraturas.
  2. b) Doença de Gaucher tipo2 também conhecida como doença de Gaucher neuropática aguda e a tipo 3 a doença de Gaucher neuropática crónica que se caracterizam também pelo envolvimento neurológico.

HN – Perante a suspeita de doença de Gaucher, como é feito o diagnóstico e qual é, em média, o tempo que decorre desde os primeiros sintomas até se chegar a um diagnóstico definitivo?

AO – Como acontece com as doenças raras existe muitas vezes um atraso no diagnóstico que pode ir até 10-12 anos desde o início dos primeiros sintomas sobretudo nas formas ligeiras e atípicas.

O diagnóstico pode ser feito através da análise da função da enzima beta-glicosidase numa amostra de sangue, fresco ou seco em papel de filtro, seguida da identificação de variantes patogénicas no gene GBA (gene que codifica a enzima deficiente) por métodos moleculares.

Existem biomarcadores que se correlacionam com o grau de armazenamento dos glicolípidos que são também importantes para o diagnóstico e sobretudo para monitorização da doença nomeadamente quando os doentes iniciam a terapêutica como é o caso da quitotriosidase e do Lyso-Gb1.

HN – Uma vez diagnosticada, como é feito o acompanhamento multidisciplinar destes doentes, nomeadamente a nível da gestão da dor óssea, da fadiga e das outras complicações?

AO – Estes doentes em Portugal são seguidos nos Centros de Referência de Doenças Hereditárias do Metabolismo e de Doenças Lisossomais, por equipas multidisciplinares como os internistas, hematologistas, pediatras, ortopedistas, geneticistas. São realizados exames regulares para monitorizar a resposta ao tratamento, avaliar a progressão da doença e ajustar intervenções.

HN – Qual é o impacto psicológico de viver com uma doença crónica e rara como a de Gaucher, tanto para o doente como para a sua família, e que tipo de apoio existe?

AO – O impacto da doença na vida dos doentes e das suas famílias pode ser grande com manifestações álgicas por envolvimento ósseo, cansaço por anemia, hemorragias por plaquetas baixas, problemas pulmonares e outras complicações tardias como o aumento do risco para desenvolver Parkinsonismo e doenças hemato-oncológicas.

Os tratamentos destas patologias obrigam muitas vezes os doentes a deslocarem-se aos hospitais com impacto também na vida laboral sobretudo para a população adulta jovem.

O suporte psicológico, social e o acesso a tratamentos são essenciais para melhorar a qualidade de vida.

HN – Que evolução tem havido, nos últimos anos, nas opções de tratamento para a doença de Gaucher e que impacto tiveram na qualidade de vida dos doentes?

AO – Nos últimos anos têm existido avanços não só no diagnóstico, mas também terapêuticos. O tratamento de primeira linha consiste na administração quinzenal ou mensal, por via endovenosa, da enzima em falta. Existem atualmente duas formulações de terapêutica de substituição enzimática: imiglucerase e velaglucerase com perfil de segurança e eficácia clínica. Existe ainda atualmente terapêutica oral de redução do substrato: miglustato (menos usado nos dias de hoje) e eliglustato.

No futuro e já com ensaios clínicos a decorrerem haverá terapêutica génica.

Todos estas alternativas terapêuticas são discutidas com os doentes e decididas de forma individualizada. A sua aprovação é feita em Portugal pela Comissão Coordenadora do Tratamento de Doenças Lisossomais de Sobrecarga (CCTDLS ) em reunião de peritos.

HN – Tendo em conta que a doença de Gaucher é hereditária, que papel tem o aconselhamento genético no acompanhamento das famílias e na prevenção de novos casos?

AO – A doença é herdada de uma forma autossómica recessiva, ou seja, a pessoa precisa de herdar duas cópias do gene mutado (uma de cada progenitor) para desenvolver a doença.

O aconselhamento genético deverá ser aconselhado às famílias envolvidas por esta patologia.

Mais importante é o diagnóstico precoce dado que facilita o acesso a tratamentos eficazes e melhora os “outcomes”, evitando complicações graves e melhora a qualidade de vida dos doentes.

A sensibilização também ajuda a diminuir o estigma e a promover a investigação e o desenvolvimento de novas terapias.

 

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