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Uma equipa de investigadores chineses identificou mecanismos moleculares associados a uma modificação específica do RNA, conhecida como m6A, que poderá reconfigurar a abordagem diagnóstica e terapêutica de patologias cardiovasculares. A revisão sistemática, que sintetiza o conhecimento atual, sugere que a disfunção neste processo epigenético está na base de processos fisiopatológicos como a aterosclerose, a insuficiência cardíaca e a hipertensão pulmonar. A descoberta aponta para alvos terapêuticos inéditos, podendo vir a originar tratamentos mais direcionados.
A investigação, conduzida por Hongjiao Liu, Tao Song e Yan Huang, centra-se na forma como a modificação m6A atua como um regulador crítico da expressão genética no sistema cardiovascular. Esta modificação, a mais comum no RNA de células eucarióticas, funciona através de uma coreografia molecular dinâmica, envolvendo “escritores” (metiltransferases como METTL3 e METTL14) que adicionam a marca, “borrachas” (desmetilases como a FTO) que a removem e “leitores” (proteínas de ligação) que interpretam o sinal. O equilíbrio entre estes intervenientes determina o destino e a função das moléculas de RNA, influenciando desde a sua estabilidade até à eficiência da sua tradução em proteínas.
No contexto da doença arterial coronária, os níveis elevados de m6A aparecem associados a inflamação vascular crónica e à proliferação de células musculares lisas, fenómenos centrais na formação da placa aterosclerótica. A enzima FTO, ao regular a desmetilação, mostra também influência na adipogénese, ligando este mecanismo a fatores de risco metabólicos. Já na insuficiência cardíaca, a modificação m6A interfere com a apoptose de miócitos e a homeostase do cálcio, processos que podem conduzir a um remodelamento ventricular disfuncional. A modulação das enzimas responsáveis pela m6A demonstra potencial para atenuar estes efeitos e promover a reparação do tecido cardíaco.
A hipertensão pulmonar e as arritmias são outras áreas de impacto. Na primeira, a modificação influencia a proliferação celular na vasculatura pulmonar. Nas segundas, a instabilidade elétrica do coração, como a observada na fibrilação auricular, parece estar ligada a uma regulação m6A deficiente dos canais iónicos e da atividade do sistema nervoso autónomo. O conjunto destas observações desenha um panorama onde a manipulação fina da m6A se afigura como uma estratégia promissora, ainda que em fase embrionária, para um leque alargado de condições cardíacas. O trabalho sustenta-se em financiamento de várias instituições científicas chinesas, incluindo a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China.
Referência Bibliográfica
Hongjiao Liu, Tao Song, Yan Huang, The mechanism of m6A modification in cardiovascular diseases: A systematic review, Genes & Diseases, Volume 13, Issue 1, 2026, 101672, https://doi.org/10.1016/j.gendis.2025.101672
NR/ALphaGalileo/HN



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