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HN – Em que medida é que a resposta ao AVC em Portugal evoluiu na última década, nomeadamente ao nível da organização dos serviços de saúde e do acesso a tratamentos inovadores?
Denis Gabriel (DG) – A inovação determinante ocorreu no tratamento do AVC isquémico. Na última década assistimos a uma expansão do acesso à trombectomia, um tratamento cirúrgico por via endovascular (por dentro das artérias) que permite a remoção mecânica de um coágulo que está a obstruir o normal fluxo de sangue para uma dada zona do nosso cérebro (e por isso em risco). Partindo de uma proporção de tratamento abaixo de 5% dos casos de AVC isquémico admitidos em hospitais públicos em 2015, chegamos, no presente, a um número perto dos 25% de doentes com AVC isquémico tratados e com 95% de acessibilidade por parte de quem beneficia. Sem dúvida que esta é a maior conquista nesta área e houve um grande trabalho de reorganização das dinâmicas de trabalho para que isto fosse possível. No entanto também temos dificuldades, por exemplo, com a baixa proporção de doentes tratados com trombólise (um tratamento para promover a dissolução do coágulo realizado por via intravenosa). Ainda não conseguimos tratar nos primeiros 30 minutos após a chegada ao hospital em todo o país e temos um número ainda baixo de doentes com AVC que têm acesso a internamento em Unidade de AVC na altura em que mais beneficiam dela.
HN – O método FAST (Face, Braços, Fala, Tempo) é a bandeira do reconhecimento precoce. Pode explicar-nos, de forma simples, o que as pessoas devem observar em cada uma destas três componentes (Face, Braços, Fala) e qual é a atitude correta perante um ou mais sinais positivos?
DG – O acrónimo FAST é de facto a forma de sistematizar os principais sintomas que devem alterar a população para a possibilidade de estar a presenciar um AVC. O aparecimento súbito de uma face assimétrica com o lábio ou canto da boca descaído para o lado, de perda de força ou de sensibilidade dos membros (geralmente de um lado) ou de dificuldade em articular bem as palavras na produção do discurso ou em compreender o que lhe é dito (muitas vezes até articulando bem as palavras, mas elas não fazem sentido) deve sempre fazer pensar num AVC. Mas também a alteração visual súbita (de um lado do campo visual ou num olho), um desquilíbrio ao caminhar ou uma dor de cabeça muito intensa “explosiva” que se instalaram abruptamente devem desencadear o alerta e depois, naturalmente, é tempo de agir. Não só é importante ligar rapidamente para o 112 como é transmitir de forma clara o que se presenciou, para que quem está do outro lado possa validar a suspeita e pré-notificar os profissionais no hospital da chegada de um quadro suspeito.
HN – Quais são, na sua experiência, os erros ou hesitações mais comuns dos portugueses no reconhecimento dos sintomas de um AVC, e que consequências podem essas falhas ter no desfecho clínico do doente?
DG – É muito importante não ignorar estes sintomas e sinais e não esperar que o quadro melhore espontaneamente. Mesmo que isso aconteça, os sintomas podem voltar mais tarde e com maior gravidade. Este é talvez o erro ou hesitação mais comum. Tentar evitar recorrer ao 112 ou ao hospital pode ser determinante, na medida em que pode já não ser possível, por exemplo, ser tratado com trombólise. Na dúvida, o melhor é ligar para o 112 e explicar o que viu a quem está do outro lado. Há casos de admissão tardia porque a instalação dos sintomas não foi presenciada e só foi notada tardiamente por familiares ou amigos. Mas mesmo esses casos devem ser comunicados rapidamente ao 112.
HN – A rapidez de ação é crítica. Do ponto de vista de um neurologista, qual é a janela temporal ideal para se obterem os melhores resultados após o início dos sintomas, e quais são os tratamentos que estão dependentes desta urgência?
DG – O mais cedo possível é a resposta. Cada cérebro é único na sua tolerância à escassez de aporte de sangue, que traz consigo os nutrientes e oxigénio essencial para as células no nosso cérebro, que é um órgão metabolicamente muito ativo e por isso frágil nesse contexto. Até às 4 horas e meia, na ausência de contraindicações importantes, um doente com AVC isquémico é candidato a trombólise se tiver sintomas incapacitantes. Dependendo dos casos, hoje um doente com AVC isquémico pode ser elegível a tratamento de remoção do coágulo de forma mecânica, com perto de 24 horas de evolução de sintomas.
No caso de um AVC hemorrágico, é igualmente preponderante que seja admitido rapidamente. Hoje sabemos que atuar rapidamente perante valores elevados de pressão arterial e a reversão rápida do efeito de medicamentos hipocoagulantes nesses casos (durante a primeira hora após a admissão hospitalar), para além de outras abordagens selecionadas e medidas de suporte também utilizadas no tratamento do AVC isquémico podem influenciar de forma significativa a mortalidade e prognóstico funcional.
HN – Para além de reconhecer os sinais, a prevenção é fundamental. Quais são os principais fatores de risco modificáveis para o AVC e que mudanças de estilo de vida a SPAVC recomenda para reduzir significativamente o risco?
DG – Há 10 fatores modificáveis responsáveis por mais de 80% dos AVC, por ordem decrescente de importância: hipertensão arterial, poluição ambiental, tabagismo, colesterol elevado, exposição a poluentes resultantes de atividades domésticas como cozinhar e aquecimento, elevado consumo de sal, elevado nível de glicose (açúcar) no sangue, redução da função dos rins, dieta pobre em frutas e vegetais e consumo de álcool.
O primeiro passo é perceber que se pode reduzir substancialmente o risco mitigando estes fatores. O segundo é conhecer a sua situação pessoal. A hipertensão arterial é frequente na nossa população e está subdiagnosticada e subtratada. É necessário termos uma atitude diferente perante estes fatores de risco clássicos. O grau de sucesso está diretamente relacionado com o acompanhamento da situação por parte da equipa de saúde familiar que permite consolidar o diagnóstico, motivar para o tratamento, acompanhar os resultados e reforçar os ganhos obtidos.
HN – A literacia em saúde é uma arma poderosa. Que passos devem ser dados, a nível nacional, para melhor educar a população, incluindo os grupos mais jovens, sobre o AVC e a sua urgência?
DG – Hoje sabemos que medidas políticas de âmbito ambiental como a redução à exposição do fumo dos automóveis nas cidades ou a promoção de mais espaços verdes e parques, aliados a uma maior literacia por parte da população jovem podem promover uma mudança substancial nos estilos de vida, como a redução do uso do automóvel e maior uso de bicicleta e promoção de exercício físico. Sem esquecer o aumento da literacia em nutrição, em particular, na divulgação da quantidade de sal em todos os alimentos que compramos e, com maior ênfase, nos alimentos altamente processados e a campanha contra o tabaco, sem esquecer o vaping. A força da mudança está na consciencialização que um estilo de vida mais saudável nos traz maior sensação de bem-estar, mais saúde no presente e, também, menor risco de doença no futuro.
A consciencialização começa desde cedo, nos jardins de infância e nas escolas primárias. As crianças e jovens, além de ficarem capacitados para reagir, são um potente veículo desta mensagem para os seus pais e para os seus avós, a população em risco. Mas é, também, importante que a mensagem seja repetida para que não nos esqueçamos e, sobretudo, que nos seja dada a oportunidade de perceber porque faz a diferença atuar com rapidez.
HN – Por fim, qual é a mensagem-chave que a SPAVC gostaria de deixar aos portugueses durante esta Semana de Sensibilização para o AVC?
DG – O lema do Dia Mundial em 2025 é “Cada Minuto Conta”. Não há tempo a perder. Fale com os seus pais ou avós sobre o tema e certifique-se que eles sabem reconhecer os sintomas e o que fazer perante uma situação dessas. Questione o seu Médico de Família sobre o seu risco e, se lhe for prescrita medicação para controlo do(s) seu(s) fator(es) de risco(s), saiba que a evidência do benefício do seu uso continuado veio de estudos científicos rigorosos. Por último, saiba que se estima que 1 em cada 4 pessoas irá sofrer um AVC, que mais de metade dos casos acontecem abaixo dos 70 anos e que esta continua a ser a principal causa de morte em Portugal e uma das maiores causas de incapacidade. Por isso comece já hoje a cuidar do seu futuro, com sáude.
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