Imagens da demência: o retrato que a imprensa não mostra

17 de Novembro 2025

Um estudo da Universidade da Finlândia Oriental revela que as imagens que ilustram notícias sobre demência nos maiores jornais finlandeses reforçam estereótipos negativos. A análise detetou representações maioritariamente associadas à velhice, dependência e metáforas visuais redutoras, que podem alimentar estigmas e atrasar diagnósticos

As imagens que acompanham as notícias sobre demência na imprensa finlandesa tendem a construir uma narrativa visual enviesada, marcada pelo medo e pela redução da condição a clichés facilmente reconhecíveis. Esta é a conclusão central de um estudo realizado na Universidade da Finlândia Oriental, que analisou todas as fotografias e ilustrações publicadas sobre o tema nos quatro maiores jornais do país entre 2018 e 2021.

A investigação, agora publicada na revista Age and Ageing, descreve um panorama visual onde as pessoas com demência surgem predominantemente retratadas como figuras idosas, frágeis e dependentes. Cabelos grisalhos, mãos enrugadas e expressões vazias ou tristes compõem um retrato coletivo que ignora a diversidade de experiências. Nota-se ainda a ausência quase total de imagens de pessoas mais jovens, apesar de cerca de dez por cento dos diagnósticos ocorrerem antes dos 65 anos.

Eino Solje, professor associado e investigador principal, não se surpreende com os resultados, mas mostra-se preocupado com o seu impacto. As perceções transmitidas por estas imagens, afirma, não refletem de modo algum as pessoas que conhece na sua prática clínica. “Na vida real, as pessoas diagnosticadas com demência estão tão bem cuidadas e apresentáveis como os seus pares. Imagens que induzem ansiedade e medo podem ampliar os estigmas e atrasar a procura de cuidados”, sublinha.

A equipa multidisciplinar identificou ainda um uso frequente de metáforas visuais carregadas de emotividade. A demência era frequentemente simbolizada por quebra-cabeças em forma de cabeça com peças do cérebro em falta, silhuetas a perder fragmentos pela região da cabeça ou árvores a perder folhas de outono ao vento. Muitas dessas imagens, cerca de um terço do total, nem sequer se alinhavam com o conteúdo das notícias que ilustravam. Histórias sobre demência em idade laboral eram, por exemplo, acompanhadas por fotografias de mãos idosas ou por puzzles incompletos.

Sanna-Maria Nurmi, investigadora de pós-doutoramento e primeira autora do artigo, chama a atenção para um paradoxo. As notícias focadas na prevenção da demência tendem a usar imagens mais positivas, que mostram atividade física e interação social. No entanto, estas representações podem criar um ideal normativo de “envelhecimento bem-sucedido”, transmitindo a noção errada de que a demência é uma falha pessoal.

Outro ponto problemático identificado no trabalho prende-se com o foco em imagens de medicamentos e tratamentos, que podem sugerir a existência de uma cura, algo que atualmente não corresponde à realidade. A esmagadora maioria das imagens analisadas eram stock photos, onde os modelos são pessoas que não vivem com demência, mas que a simbolizam através de clichés visuais. Este distanciamento entre a representação e a experiência real, argumentam os investigadores, acaba por consolidar estereótipos.

“As imagens moldam as perceções e, sobretudo, as primeiras impressões, de um modo mais poderoso do que as palavras”, observa Nurmi. Uma representação visual que associa a demência quase exclusivamente à velhice, à dependência e à perda, frequentemente através de metáforas redutoras, pode fomentar atitudes discriminatórias e contribuir para o estigma sentido por quem vive com a condição.

O estudo defende, por isso, uma reformulação urgente da representação visual da demência nos media. Uma abordagem mais diversificada e realista, que inclua pessoas de diferentes idades e contextos, situações do quotidiano e relações significativas, poderia ajudar a reduzir o estigma, promover a inclusão e aprofundar a compreensão da complexidade da demência.

Este é o primeiro análise sistemática e abrangente sobre a representação visual da demência na imprensa finlandesa. Os seus achados possuem relevância internacional, demonstrando que o estigma pode persistir mesmo em estados de bem-estar social com sistemas de saúde avançados.

Artigo de investigação:
Sanna-Maria Nurmi, Arja Halkoaho, Johanna Krüger, Henna Nikumaa, Anna Mäki-Petäjä-Leinonen, Kasper Katisko, Eino Solje, Visualising dementia in news media: reinforcing ageing, dependency and stigma, Age and Ageing, Volume 54, Issue 10, October 2025, afaf305, https://doi.org/10.1093/ageing/afaf305

NR/HN/AllphaGalileo

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