Corporações alimentares minam saúde global, alertam especialistas

19 de Novembro 2025

Uma série de artigos na revista The Lancet revela que o consumo global de alimentos ultraprocessados, associado a doenças crónicas, é impulsionado por táticas agressivas de corporações. Especialistas de 43 instituições defendem medidas urgentes para limitar a influência da indústria e promover dietas saudáveis, citando paralelos com a luta histórica contra o tabaco.

O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados em escala mundial configura um desafio de saúde pública que exige respostas imediatas e coordenadas, segundo três artigos publicados na revista The Lancet. A série, assinada por 43 investigadores de diversos países, sustenta que estes produtos – formulados com ingredientes industriais e aditivos – estão a substituir progressivamente as dietas baseadas em alimentos frescos ou minimamente processados, com consequências graves para a saúde.

Carlos Monteiro, professor da Universidade de São Paulo e um dos autores, não poupa críticas ao afirmar que “esta mudança nos hábitos alimentares é impulsionada por poderosas corporações globais que geram lucros enormes ao priorizar produtos ultraprocessados”. Segundo ele, essas empresas recorrem a um marketing intensivo e a estratégias de ‘lobby’ político para dificultar a adoção de políticas públicas que poderiam incentivar a alimentação saudável.

As evidências compiladas pelos investigadores, que incluíram a revisão sistemática de 104 estudos longitudinais, são contundentes: em 92 desses trabalhos, foram identificados riscos acrescidos para o desenvolvimento de uma ou mais doenças crónicas. As meta-análises realizadas confirmaram associações significativas entre o consumo elevado de ultraprocessados e 12 problemas de saúde, como obesidade, diabetes tipo 2, patologias cardiovasculares, depressão e mortalidade prematura por todas as causas.

De acordo com a classificação NOVA, que categoriza os alimentos consoante o seu grau de processamento industrial, estes produtos são fabricados a partir de ingredientes de baixo custo – óleos hidrogenados, isolados proteicos, xaropes de glucose-frutose – e aditivos como corantes, adoçantes artificiais e emulsionantes. Para além da composição questionável, as empresas do setor investem em embalagens apelativas e em campanhas publicitárias dirigidas a públicos vulneráveis, como as crianças.

Os especialistas denunciam ainda que o poder económico destas corporações – descrito como “o setor alimentar mais rentável” – se traduz numa influência política considerável. Karen Hoffman, da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, traça um paralelo histórico: “Tal como confrontámos a indústria do tabaco há décadas, precisamos agora de uma resposta global ousada e coordenada para conter o poder desproporcional das corporações dos alimentos ultraprocessados”.

Entre as táticas atribuídas às empresas, os artigos referem a coordenação de centenas de grupos de interesse em todo o mundo, o ‘lobby’ junto de decisores políticos, a oferta de donativos e o recurso a litígios para atrasar a implementação de regulamentação. Esse conjunto de ações é considerado “o maior obstáculo” à aplicação de medidas eficazes.

Como solução, os autores propõem a criação de políticas específicas para este tipo de produtos, que complementem a legislação existente sobre teores de gordura, açúcar e sal. Sugerem ainda a restrição da publicidade, especialmente em ambientes digitais e dirigida a menores, a proibição da venda em instituições públicas como escolas e hospitais, e a limitação da exposição destes artigos nos pontos de venda.

Do lado da promoção de alternativas, defende-se que as políticas públicas devem ampliar o acesso a alimentos frescos e nutricionalmente adequados. Camila Corvalan, da Universidade do Chile, avança a ideia de “aplicação de impostos sobre estes produtos para financiar um maior acesso a alimentos nutritivos e acessíveis”. Já Gyorgy Scrinis, da Universidade de Melbourne, alerta para a necessidade de tais opções saudáveis serem realistas para famílias com menos tempo, sublinhando que só com regulamentação firme e apoio concreto se poderá melhorar a dieta das populações.

O caminho a seguir, insistem os peritos, passa por proteger a definição de políticas de interferências da indústria, cortar os laços entre esta e os profissionais de saúde, e fomentar sistemas alimentares que valorizem produtores locais e tradições culturais.

Links:
Comunicado da Lancet: https://www.thelancet.com/series/ultraprocessed-foods
Série de artigos: https://www.thelancet.com/series/ultraprocessed-foods

NR/HN/Lusa

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