Investigação portuguesa distinguida com 1,75 milhões para estudar impulsividade, cancro e envelhecimento

20 de Novembro 2025

Quatro cientistas das fundações Champalimaud e GIMM venceram o Concurso CaixaResearch de Investigação em Saúde, assegurando mais de 1,75 milhões de euros para explorar o controlo cerebral da impulsividade, novas imunoterapias baseadas em nanotecnologia e os mecanismos de estabilidade do genoma. Os projetos, selecionados entre centenas de candidaturas, pretendem abrir caminho a tratamentos inovadores para doenças como o cancro, o Parkinson e patologias associadas ao envelhecimento

O Concurso CaixaResearch de Investigação em Saúde vai financiar quatro projetos de cientistas portugueses com um montante global que ronda 1,75 milhões de euros. Os trabalhos distinguidos pertencem a investigadores da Fundação Champalimaud e da Fundação GIMM e centram-se em temas como a impulsividade, a imunoterapia para o cancro e a estabilidade genómica.

Joe Paton, da Fundação Champalimaud, vai estudar a forma como o cérebro gere informações de curto e longo prazo, um processo crucial para a tomada de decisões. “Os nossos cérebros estão constantemente a ponderar as consequências imediatas versus as de longo prazo das nossas escolhas”, afirmou Paton. A sua equipa recorre a ratinhos para analisar o papel da dopamina em circuitos neuronais, combinando optogenética e registos de atividade cerebral. O objetivo é compreender o que falha em condições como a impulsividade ou a dependência, problemas frequentes em doenças como o défice de atenção e hiperatividade.

Carlos Minutti, também da Champalimaud, propõe uma abordagem inovadora para atacar os açúcares anormais presentes na superfície de células cancerígenas, designados glicanos. Estes compostos atuam como uma espécie de disfarce molecular, permitindo que o tumor escape ao sistema imunitário. O projeto GlycoTARGET pretende criar nanodiscos – GlycoDISCs – que exibam esses glicanos de modo a desencadear uma resposta coordenada de anticorpos e células T. “O apoio da Fundação ‘la Caixa’ permitirá transformar uma das caraterísticas mais furtivas do cancro no seu ponto fraco”, explicou Minutti.

Do lado da Fundação GIMM, João Lacerda dedica-se ao desenvolvimento de terapias com células CAR T, uma forma de imunoterapia que tem tido sucesso em leucemias e linfomas, mas menos em tumores sólidos. A sua equipa está a criar um recetor quimérico direcionado ao condroitina sulfato, um glicano quase exclusivo de células cancerígenas. “Os nossos dados preliminares mostram respostas antitumorais promissoras”, adiantou Lacerda. O financiamento será usado para validar a terapia e avançar para a aplicação clínica.

Já Claus Azzalin, também do GIMM, estuda o papel do RNA TERRA na reparação de telómeros, as extremidades dos cromossomas. Quando danificados, os telómeros podem ser confundidos com quebras de ADN, gerando instabilidade genómica. “Compreender como os telómeros são mantidos pode revelar novos caminhos para terapias contra o cancro e doenças relacionadas com o envelhecimento”, referiu Azzalin.

A edição de 2025 do Concurso CaixaResearch atribuiu um total de 26 milhões de euros a 14 projetos de Portugal e Espanha, contando com a colaboração da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) que, em Portugal, financia três dos nove projetos nacionais selecionados. Desde 2018, a iniciativa já apoiou 234 projetos, com um investimento total de 172,3 milhões de euros.

Imagem: João Lacerda (crédito: Fundação GIMM)

PR/HN

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