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A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) colocou na mesa um desafio económico e social: priorizar os primeiros mil dias de vida, desde a gestação até aos dois anos de idade, como janela irrepetível para o desenvolvimento humano. Num documento divulgado esta quarta-feira, a organização não se limitou a apelar à sensibilidade política — trouxe contas concretas.
Estudos citados pela OPP, realizados no Reino Unido e no Brasil, quantificam os custos dos problemas de saúde psicológica na gravidez em milhares de milhões. Do outro lado da equação, programas de promoção de competências parentais geram retornos entre 6 e 16 euros por cada euro investido. Já iniciativas que previnem maus-tratos infantis devolvem sete euros por cada euro aplicado.
“É neste intervalo que se estabelecem as bases fundamentais da saúde física e psicológica, do desenvolvimento cognitivo e socioemocional”, sublinha a Ordem, lembrando que é nesta fase que o cérebro constrói mais de um milhão de conexões neuronais por segundo. Mais tarde, um processo de “poda sináptica” afina esses circuitos, mas a arquitectura de base fica marcada a ferro.
A organização não se ficou pela defesa de princípios. Entrou por domínios concretos das políticas públicas, da saúde ao trabalho, passando pela educação e fiscalidade. No Serviço Nacional de Saúde, por exemplo, defende a integração da avaliação psicológica e social nas consultas pré e pós-natais e um rácio de um psicólogo para cada cinco mil utentes.
No campo laboral, a OPP pressiona por uma licença parental remunerada a 100% por, pelo menos, seis meses — independentemente de como seja partilhada entre progenitores — e pela redução de horário de trabalho até a criança completar três anos. Empresas que promovam a conciliação entre vida pessoal e profissional deveriam, defende, receber incentivos fiscais.
A acesso universal a creches de qualidade surge como outra peça central, classificada como uma das políticas com melhor relação custo-benefício. “O investimento nas fases precoces do desenvolvimento potencia o impacto de investimentos futuros”, sustenta a Ordem.
No documento, a organização alerta ainda para a prevalência de relações de vinculação insegura — 48% das crianças, de acordo com estimativas globais —, cenário que favorece experiências de rejeição, negligência ou cuidados inconsistentes.
A terminar, a OPP deixa dois apelos tangíveis: a comparticipação a 100% de suplementos essenciais ao desenvolvimento fetal e infantil e a redução do IVA em produtos para a primeira infância. Tudo, defende, com um fio condutor: transformar os primeiros mil dias de vida numa prioridade orçamental e social.
PR/HN



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