Despesas hospitalares com medicamentos sobem 15% face à ausência de monitorização sistemática

21 de Novembro 2025

Três em cada quatro hospitais públicos portugueses não monitorizam sistematicamente os resultados das novas terapêuticas utilizadas, uma prática que poderia gerar poupanças significativas na despesa hospitalar com medicamentos, que aumentou 15% até setembro deste ano. 

Segundo o Index Nacional do Acesso ao Medicamento Hospitalar, 77% dos hospitais não realizam esta monitorização e a maioria também não reavalia as terapêuticas após a sua aplicação, o que limita a possibilidade de renegociar preços com a indústria farmacêutica. Além disso, 80% das instituições não fazem gestão dos dados relativos à efetividade e segurança dos medicamentos em contexto de vida real.

A despesa com medicamentos hospitalares atingiu 2.381,4 milhões de euros entre janeiro e setembro, um aumento de 14,9% face ao período homólogo, segundo dados do Infarmed. No ambulatório, a despesa cresceu 13,1%, num acréscimo de 162 milhões de euros. Esta rubrica integra os bens e serviços onde o Governo pretende aplicar um corte de 10%.

O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) destacou a importância da avaliação do impacto real dos medicamentos nos doentes, sublinhando que a ausência deste acompanhamento é um problema grave. A monitorização dos resultados permitiria ajustar os preços pagos à indústria farmacêutica consoante a concretização dos benefícios esperados, através de acordos de partilha de risco, prática ainda pouco utilizada em Portugal. Para incentivar esta avaliação, propõe-se a criação de incentivos específicos para os hospitais.

O Index revela ainda que 84% dos hospitais não dispõem de um sistema integrado de gestão de dados clínicos, financeiros e administrativos, o que dificulta a análise da relação custo-efetividade das intervenções em saúde. Entre as instituições que monitorizam os resultados das novas terapêuticas, 86% afirmam que este acompanhamento influencia a prática clínica e já levou à alteração ou criação de protocolos. Esta monitorização permite identificar se os medicamentos cumprem os efeitos desejados e possibilita a substituição por alternativas mais económicas, mantendo a eficácia e segurança.

No que diz respeito à dispensa de medicamentos em proximidade, apenas 40% dos doentes que levantam medicamentos no hospital beneficiam deste serviço, considerado insuficiente pelos especialistas. Por outro lado, o número de hospitais com consulta farmacêutica aumentou significativamente desde 2018, passando de 27% para 61%. A carga administrativa continua a ser apontada como uma das maiores barreiras no processo de compra dos medicamentos.

lusa/HN

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