Especialistas alertam para a violência coerciva em seminário no Politécnico de Setúbal

21 de Novembro 2025

Seminário da EPVA-ULSA no IPS debateu a violência coerciva, um fenómeno subtil e destruidor. Especialistas sublinharam o papel crucial dos profissionais de saúde na sua deteção

O Politécnico de Setúbal acolheu a sétima edição do Seminário da Equipa de Prevenção da Violência no Adulto da Unidade Local de Saúde da Arrábida, que este ano centrou as suas discussões na complexa teia da violência coerciva. A iniciativa, organizada em parceria com a Escola Superior de Saúde do IPS a 14 de novembro, juntou mais de uma centena de participantes num debate urgente sobre formas de controlo que não deixam marcas físicas visíveis, mas que isolam e aniquilam psicologicamente as vítimas.

António Freitas, subdiretor da ESS/IPS, não escondeu o seu apreço pela colaboração. Na sessão de abertura, e falando também em nome da presidente do IPS, Ângela Lemos, enfatizou o compromisso da instituição com uma formação que vá além da técnica. “Enquanto instituição de Ensino Superior, o IPS tem um compromisso firme com a formação de profissionais conscientes, críticos e socialmente responsáveis, capazes de agir não só com competência técnica, mas também com sensibilidade humana”, referiu. A sua intervenção pintou um quadro onde a academia e os serviços de saúde se entrelaçam na procura de uma sociedade mais segura.

O cenário atual, contudo, impõe desafios monumentais. Zélia Candeias, coordenadora da EPVA-CSP da ULSA e docente da ESS/IPS, trouxe para o encerramento os números frios que ilustram uma realidade quente e dolorosa. “O ano de 2025 revelou um agravamento da situação em Portugal, com a PSP e a GNR a registarem 25.327 ocorrências de violência doméstica nos primeiros nove meses do ano — o valor mais elevado dos últimos sete anos. Este período incluiu ainda cinco homicídios, elevando para 18 o número total de mortes associadas a este fenómeno apenas em 2025”, afirmou. A sua voz carregava o peso de uma década de trabalho de campo nos concelhos de Setúbal, Palmela e Sesimbra.

Foi neste contexto que a violência coerciva, o fio condutor do evento, foi dissecada. Zélia Candeias descreveu-a como um fenómeno que opera nas sombras, um mal que destrói silenciosamente, corroendo a autoestima e a capacidade de decisão da vítima. Os seus efeitos, disse, são uma herança pesada de traumas físicos, emocionais e neurológicos que frequentemente passam despercebidos, mesmo perante os olhos treinados dos profissionais. A formação surge então não como uma mera opção, mas como um eixo fundamental no combate a esta realidade. A parceria com a ESS/IPS tem sido, nas suas palavras, profícua, pois leva estas questões para o coração do percurso académico dos futuros profissionais, tornando-os mais habilitados para detetar os sinais que a sociedade insiste em não ver. Esta articulação, defendeu, robustece a resposta dos serviços e da comunidade perante uma problemática que teima em não recuar.

PR/HN

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