Funcionárias do SNS suspensas por envolvimento em rede de imigração ilegal

21 de Novembro 2025

Duas funcionárias de uma unidade de saúde de Ovar foram suspensas de funções após detenção no âmbito da operação "Gambérria". A PJ investiga uma rede de auxílio à imigração ilegal que terá usado inscrições fraudulentas no SNS para legalizar imigrantes. As arguidas aguardam julgamento em liberdade, com medidas de coação

Duas mulheres, de 40 e 54 anos, trabalhadoras administrativas de uma Unidade de Saúde Familiar (USF) no município de Ovar, viram as suas carreiras interrompidas pela intervenção da Polícia Judiciária. Foram suspensas de funções pelo Tribunal Central de Investigação Criminal, em Lisboa, depois de detidas sob suspeita de integrarem uma trama de imigração ilegal que a PJ já batizou de “Gambérria”.

A investigação, que remonta a setembro de 2023, aponta para que as duas funcionárias tenham realizado aproximadamente dez mil inscrições fraudulentas de imigrantes no Serviço Nacional de Saúde, um serviço prestado ao longo de um ano e meio em troca de vantagens financeiras. O ritmo de registos terá sido tal que a fraude só veio a lume quando se descobriu que quase quinhentas pessoas estavam inscritas com a mesma morada, numa rua de Lisboa. Um desvio que, sublinha a PJ, passou ao lado dos sistemas do ministério da Saúde.

Uma fonte da Diretoria do Centro da PJ, que coordena a operação, descreveu com algum colorido que a fase de atribuição do número de utente do SNS, conseguida pelas suspeitas, “é das mais difíceis, a cereja no topo do bolo, entre aspas”. Este passo seria crucial para o processo de legalização.

As duas funcionárias, ouvidas pelo juiz, aceitaram a suspensão de funções e ficam agora proibidas de contactar entre si e com os outros arguidos do processo. Foram ainda sujeitas a termo de identidade e residência, aguardando o andamento do processo em liberdade.

A “Gambérria”, que a polícia classifica como estando na sua fase final e com objetivos atingidos, já levou à detenção de 16 pessoas em três fases operacionais. O lote de detidos inclui sete empresários, uma advogada e uma funcionária da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas do ministério dos Negócios Estrangeiros. Para além dos detidos, há mais 26 indivíduos constituídos arguidos.

A operação permitiu ainda o apreensão de numeroso dinheiro, imóveis e viaturas, para além de ter detetado movimentos bancários na casa dos milhões de euros. Um caso que expõe fragilidades no sistema e levanta questões sobre a forma como redes organizadas se infiltram em sectores do Estado.

NR/HN/Lusa

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