Evacuações médicas de Gaza travadas em labirinto burocrático

22 de Novembro 2025

A organização Médicos Sem Fronteiras apela à aceleração das evacuações sanitárias da Faixa de Gaza, denunciando barreiras burocráticas e a morte de centenas em lista de espera, incluindo crianças

Num apelo urgente lançado durante uma conferência de imprensa em Genebra, os Médicos Sem Fronteiras (MSF), lado a lado com o UNICEF, pintaram um quadro sombrio do sistema de evacuações médicas na Faixa de Gaza. A organização não-governamental descreve um processo moroso, entravado por um emaranhado de restrições e autorizações, que está a custar vidas com uma regularidade angustiante. De acordo com os dados avançados, 740 pessoas, entre as quais 137 crianças, perderam a vida nos últimos dias à espera de um tratamento médico que nunca chegou a tempo.

O cerne do problema, segundo os MSF, não reside apenas na limitação do número de pacientes que Israel autoriza a evacuar. A teia é mais complexa, envolvendo igualmente uma certa relutância por parte de países terceiros em aceitar estes doentes e uma burocracia que parece ignorar a premência do tempo clínico. A Organização Mundial da Saúde regista oficialmente mais de 16.500 pessoas inscritas para sair de Gaza, um número que esconde a realidade de muitos outros que, com o sistema de saúde local em colapso, nem sequer conseguem aceder aos mecanismos de registo.

O drama desce da escala macro para o sofrimento íntimo de famílias dilaceradas. Hadil Zurub viu o filho de seis anos morrer subitamente, vítima de um sistema imunitário debilitado por uma doença renal rara e pela falta de medicamentos. “Perdi-o num instante”, contou, numa narrativa que os MSF recolheram. Agora, a sua outra filha, Lana, enfrenta a mesma patologia e a mesma espera interminável, inscrita numa lista que parece mais uma sentença.

Para muitos, o caminho para sequer entrarem nessa lista é ele próprio uma provação. A escassez de meios de diagnóstico, como análises para doenças imunológicas, cria um obstáculo suplementar, adiando o registo e, com ele, qualquer esperança de tratamento. Majd, o filho de Fátima Abu Hayar, é um desses casos. Com queimaduras graves em 40% do corpo causadas por um explosivo, a sua ficha técnica aguarda uma oportunidade que teima em não chegar.

Perante este cenário, o apelo dos MSF é claro e direcionado. A organização exorta os governos a exercerem pressão sobre Israel para desbloquear e agilizar as evacuações, garantindo o direito ao regresso dos pacientes e priorizando as deslocações com base na urgência clínica. Paralelamente, pede que se cortem as amarras administrativas, acelerando a emissão de vistos e assegurando condições de acolhimento dignas no estrangeiro, incluindo acompanhamento médico e apoio à reabilitação. A mensagem sublinha ainda a necessidade imperiosa de as crianças e outras pessoas vulneráveis poderem ser acompanhadas pelos seus cuidadores, um pormenor humanitário que, na confusão da guerra, se perde com frequência.

NR/HN/Lusa

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