A luz do tablet antes de dormir: estudo desafia noções estabelecidas sobre o sono infantil

23 de Novembro 2025

Estudo da Universidade Ruhr de Bochum com crianças dos 15 aos 24 meses não encontrou impacto significativo do uso de tablet na melatonina ou qualidade do sono, desafiando noções pré-estabelecidas

A exposição à luz azul dos ecrãs é frequentemente apontada como vilã para uma boa noite de descanso, sobretudo entre os mais pequenos. No entanto, uma investigação recente da Universidade Ruhr de Bochum, na Alemanha, vem complicar esta narrativa. Num estudo experimental conduzido em ambiente doméstico, cientistas não encontraram evidências de que a utilização de um tablet antes de deitar suprima a produção de melatonina ou degrade significativamente a qualidade do sono em crianças com idades entre os 15 e os 24 meses.

A equipa, composta pela professora Sabine Seehagen e pelas investigadoras Neele Hermesch e Carolin Konrad, desenhou a experiência para ultrapassar as limitações dos estudos meramente observacionais que dominam a área. “Esta abordagem não diz muito sobre se o mau sono é ‘culpa’ dos meios de comunicação, ou se há outra coisa em jogo”, explicou Seehagen, sublinhando a necessidade de uma metodologia que permita estabelecer relações de causa e efeito.

O procedimento levou os psicólogos ao domicílio de 32 famílias em duas ocasiões. Aí, cada criança foi exposta, em evenings distintos, a uma história contada através de um tablet ou através de um livro de imagens tradicional. O objetivo era comparar o impacto de ambos os suportes. Para capturar dados objetivos, os pequenos participantes usaram uma actiwatch no tornozelo, um dispositivo que regista movimentos e permite inferir a duração e a qualidade do sono. A trajetória da melatonina foi rastreada através de três amostras de saliva colhidas em cada noite de teste.

Os resultados surpreenderam os próprios cientistas. “Na evening com o tablet, esperávamos um aumento mais plano da melatonina libertada do que na evening com o livro”, admitiu Carolin Konrad. Essa expectativa, fundamentada na ação da luz azul, não se materializou nos dados. As curvas de melatonina entre as duas condições não apresentaram diferenças estatisticamente relevantes, e os parâmetros de sono medidos pelos sensores também não divergiram de forma consistente. O estudo, que pretendia isolar o efeito da luz do dispositivo, sugere que a relação entre a tecnologia e o descanso infantil pode ser mais complexa do que se supunha, envolvendo possivelmente fatores psicológicos ou contextuais que merecem uma análise mais aprofundada.

Referências Bibliográficas:
https://news.rub.de/english/press-releases/2025-11-20-developmental-psychology-using-tablet-bed-not-harmful-believed

NR/HN/AlphaGalileo

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