Bactéria marinha natural mostrou-se eficaz contra o cancro colorretal

23 de Novembro 2025

Investigadores japoneses descobriram que uma bactéria marinha não modificada geneticamente ataca tumores colorretais de forma seletiva, destruindo células cancerígenas e ativando o sistema imunitário, com um perfil de segurança promissor

Uma equipa de investigação do Japan Advanced Institute of Science and Technology (JAIST) descobriu que a bactéria marinha Photobacterium angustum, na sua forma natural e não modificada, exibe um efeito antitumoral notável em modelos de cancro colorretal. O estudo, liderado pelo Professor Eijiro Miyako, sugere um caminho singular para o desenvolvimento de imunoterapias oncológicas mais biocompatíveis e que dispensam a manipulação genética.

A investigação, que avaliou múltiplas estirpes de bactérias marinhas, identificou a P. angustum como a única com capacidade para se acumular seletivamente nos tecidos tumorais, evitando os órgãos saudáveis de forma significativa. Esta tropismo para o tumor revelou-se crucial. Após administração intravenosa em modelos murinhos, a bactéria demonstrou uma afinidade clara pelo ambiente tumoral, colonizando-o de forma abundante, enquanto a sua presença noutros órgãos, com exceção do fígado, se mostrou mínima e transitória.

Os mecanismos subjacentes à ação antitumolar operam em duas frentes. Por um lado, a bactéria produz exotoxinas naturais, incluindo hemolisinas, que promovem a lise direta das células cancerígenas. Por outro, desencadeia uma resposta imunológica robusta, recrutando para o microambiente tumoral linfócitos T e B, neutrófilos e potenciando a produção de citocinas pró-inflamatórias como o TNF-α e o IFN-γ. Esta dupla ação — citotoxicidade direta e ativação imunitária — resultou numa sobrevivência prolongada dos animais tratados, com alguns a alcançarem a remissão completa.

O perfil de segurança observado diferencia esta abordagem de outras terapias bacterianas. Os animais não apresentaram perda de peso, anomalias hematológicas ou sinais de toxicidade histológica. A elevação de citocinas inflamatórias foi significativamente mais contida comparativamente com estirpes bacterianas tóxicas testadas. Um dado particularmente relevante foi a indução de uma memória imunológica duradoura. Quando desafiados com nova inoculação de células cancerígenas 120 dias após a terapia, todos os animais que tinham eliminado o tumor rejeitaram completamente o novo crescimento.

A aplicabilidade da descoberta pode estender-se para além do cancro colorretal. A P. angustum mostrou também efeitos antitumorais promissores num modelo agressivo de cancro da mama triplo negativo e resistente a fármacos. O trabalho, agora aceite para publicação no Journal for ImmunoTherapy of Cancer, representa assim um avanço conceptual, propondo o uso de um organismo natural, e não um organismo geneticamente modificado, como um agente terapêutico inteligente e versátil contra o cancro.

Referências bibliográficas:
Miyahara, M., Takizawa, T., Sakari, M., & Miyako, E. (2025). Systemic administration of Photobacterium angustum promotes antitumor immunity and direct tumor lysis in murine models of colorectal cancer. Journal for ImmunoTherapy of Cancer. DOI: 10.1136/jitc-2025-012665. Japan Advanced Institute of Science and Technology. https://www.jaist.ac.jp/english/

NR/HN/AlphaGalileo

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