Cientistas descobrem vírus comedores de bactérias em sanitários de hospitais para combater superbactéria

23 de Novembro 2025

Uma coleção de vírus que ataca uma das superbactérias hospitalares mais perigosas foi identificada em águas residuais de hospitais. O recurso, agora de acesso livre, visa acelerar o desenvolvimento de terapias alternativas aos antibióticos

Num desenvolvimento que confirma que as soluções podem surgir nos locais mais inesperados, uma equipa internacional de cientistas descobriu uma nova coleção de vírus capazes de infetar e destruir a Klebsiella pneumoniae, uma bactéria resistente a antibióticos que assombra os hospitais. Parte destes vírus, conhecidos como fagos, foi recolhida em águas residuais de unidades de saúde, um ambiente paradoxalmente rico no próprio patógeno que se pretende combater.

Liderada pela Universidade de Southampton e com financiamento da Bowel Research UK, a investigação catalogou meticulosamente 52 fagos distintos, que foram testados contra 74 estirpes da bactéria. O trabalho, agora tornado público numa plataforma online de acesso aberto (www.klebphacol.org), representa um esforço para ultrapassar um dos maiores obstáculos no campo da terapia fágica: a fragmentação de dados e a difícil partilha de amostras físicas entre laboratórios.

Franklin Nobrega, Professor Associado de Microbiologia na Universidade de Southampton e investigador principal do projeto, enfatizou a filosofia de partilha subjacente à iniciativa. “Disponibilizar a Coleção de Fagos de Klebsiella em acesso livre é crucial. Significa que cientistas de todo o mundo podem não apenas usá-la, mas também construí sobre ela. Podem solicitar amostras, comparar resultados e até contribuir com novos fagos”, explicou. A sua perceção é a de que esta abertura pode catalisar um esforço global mais coeso contra um inimigo comum.

O perigo da Klebsiella pneumoniae reside na sua versatibilidade para causar pneumonias, septicemias e infeções urinárias, sobretudo em doentes com o sistema imunitário debilitado. O que começou como um problema controlável transformou-se numa crise de saúde pública, com algumas estirpes a mostrarem resistência a quase todos os antibióticos disponíveis, incluindo os de último recurso.

A coleção recém-constituída revelou uma surpresa: a inclusão de um grupo de fagos inteiramente novo, uma nova família viral associada ao microbioma intestinal humano. Esta descoberta abre um leque de possibilidades que vai além do tratamento de infeções agudas. Nobrega adiantou que a presença ou ausência de certos fagos no intestino parece ter implicações na saúde humana. “Encontrámo-los em intestinos saudáveis de pessoas de todas as idades, o que sugere um papel importante na manutenção do equilíbrio. A sua abundância pode até ajudar a prever a gravidade de doenças como a doença inflamatória intestinal ou o cancro colorretal”, observou.

Para Kathryn Pretzel-Shiels, CEO da Bowel Research UK, o valor deste trabalho transcende a luta imediata contra as infeções. “Investigações como esta são fundamentais para percebermos a melhor forma de aproveitar o poder do microbioma para prevenir e tratar condições intestinais”, afirmou. O caminho traçado por esta biblioteca de fagos é, portanto, duplo: serve tanto como um arsenal potencial para terapias personalizadas como um mapa para desvendar as complexas interações ecológicas dentro do nosso corpo, conhecimento que se afigura vital num mundo onde a eficácia dos antibióticos convencionais se esvai.

Referências bibliográficas:
Nobrega, F. L., et al. “KlebPhaCol: A community-driven resource for Klebsiella research identified a novel phage family”. Nucleic Acids Research. 20 de novembro de 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1093/nar/gkae1010
KlebPhaCol: www.klebphacol.org

NR/HN/AlphaGalileo

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