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Numa entrevista exclusiva ao HealthNews, o Dr. José Sanches Magalhães, do Instituto de Terapia Focal da Próstata, aborda as estratégias de rastreio, os benefícios da electroporação irreversível na preservação da qualidade de vida e a importância de um diagnóstico precoce. O especialista defende um equilíbrio entre a vigilância ativa e o tratamento, sublinhando o papel crucial da ressonância magnética e a promessa da inteligência artificial no futuro da urologia oncológica
HealthNews (HN) – O estudo europeu ERSPC, citado no comunicado, indica que é necessário convidar 456 homens para o rastreio para evitar uma morte por cancro da próstata. Face a este dado, como deve ser feita a ponderação entre os benefícios do rastreio generalizado e os riscos de sobrediagnóstico e tratamento desnecessário?
José Sanches Magalhães (JSM) – A proposta é rastrear os homens com mais de 50 anos e menos de 70 sem patologias que condicionem diminuição da esperança de vida significativa. Iniciar rastreio aos 45 anos em grupos de risco: afrodescendentes, homens com mutações conhecidas associadas a maior risco ou com incidência importante de cancro prostático, mama, ovário e pâncreas na família. O rastreio consiste na realização periódica de analise ao sangue com PSA
HN – A electroporação irreversível é apontada como uma tecnologia pioneira do seu Instituto. Em que tipo de doentes é esta terapia minimamente invasiva mais indicada e de que forma é que ela consegue preservar melhor a qualidade de vida, nomeadamente a função sexual e urinária, comparativamente a tratamentos mais tradicionais como a prostatectomia radical?
JSM – A eletroporação é uma das formas de energia possíveis de ser utilizada para uma destruição parcial da próstata. É uma intervenção realizada sob anestesia mas em regime de ambulatório. Utilizam-se as imagens de RM para guiar a energia para a zona a tratar – tratamos o que vemos (com margem de segurança). O facto de preservarmos a maior parte da próstata faz com que o impacto funcional seja muito menor do que nos tratamentos radicais. Os doentes voltam à sua rotina nos dias imediatamente após a intervenção. É claro que preservando tecido prostático faz com que a possibilidade de recidiva ou aparecimento de novos focos de doença seja mais frequente do que nos tratamentos radicais. Uma vigilância adequada faz que nesses casos novas sessões de destruição parcial ou tratamentos radicais continuem a ser opções. Os doentes ideais são aqueles com cancro da próstata de risco moderado até ISUP 3, PSA <15, lesão visível em RM e concordante com achados da biópsia.
HN – Para além da idade e do historial familiar, o comunicado refere fatores de risco como a obesidade e os hábitos alimentares. Que alterações específicas no estilo de vida recomenda aos homens para reduzirem o risco de desenvolver cancro da próstata?
JSM – Embora a obesidade não esteja associada a uma maior incidência, está associada a doença mais agressiva. Uma alimentação diversificada e exercício físico regular ajudam no controlo do peso e melhoram todos os índices de saúde global
HN – Em Portugal, o cancro da próstata continua a ser diagnosticado, por vezes, em fases tardias. Para além da sensibilização, que medidas concretas acredita que poderiam ser implementadas no sistema de saúde para melhorar o acesso e a adesão ao diagnóstico precoce, especialmente em grupos de maior risco?
JSM – A implementação de um rastreio de base populacional parece trazer vantagens embora com um risco aumento da deteção de doença indolente – nestes casos é importante adotar a abordagem de vigilância activa e só tratar se houver progressão
HN – A ressonância magnética multiparamétrica assume um papel crescente no diagnóstico. Em que momento deve ser integrada no algoritmo de decisão clínica e como é que ela pode modificar a necessidade e a forma de realizar uma biópsia da próstata?
JSM – Em doentes com PSA elevado e suspeita clinica de cancro da próstata que sejam candidatos a tratamento local a RM permite por um lado dividir entre doentes que devam realizar biópsia ou manter vigilância de PSA. Por outro lado permite localizar a zona/zonas suspeitas de cancro no interior da próstata que serão alvo preferencial da biópsia. Permite também identificar casos em que haja suspeita de doença extraprostática ou nos gânglios pélvicos.
HN – A mutação genética BRCA2 é um conhecido fator de risco para o cancro da próstata. Acredita que, à semelhança do que já acontece noutros cancros, o rastreio genético para homens com historial familiar específico se deveria tornar uma prática de rotina em Portugal?
JSM – O estudo de familiares diretos, assintomáticos, de indivíduos com mutação BRCA2 deve ser realizado em contexto de aconselhamento genético por equipa dedicada
HN – Olhando para o futuro, que inovações tecnológicas ou farmacológicas na área da urologia oncológica é que antevê terem o maior impacto no tratamento do cancro da próstata na próxima década?
JSM – A deteção de novos alvos para terapêutica dirigida tem vindo a revolucionar o tratamento do cancro da próstata avançado. Atualmente existe um sem número de linhas terapêuticas o que nos permite prolongar anos a vida a doentes com doença muito avançada. A identificação de marcadores que identifiquem grupos de doentes que beneficiem mais ou menos de cada grupo terapêutico vai ser um grande avanço. A utilização de alguns destes fármacos na doença localizada como tratamento complementar, nos grupos indicados, poderá ser de grande interesse. Os avanços na imagem com algoritmos de inteligência artificial e “machine learning” vão permitir detetar aqueles casos em que é importante biopsar e aqueles que provavelmente apenas tem “doença” de baixo risco que não queremos identificar.
Entrevista MMM



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