O solo invisível: quando a poluição não tem rosto

23 de Novembro 2025

Korsør, uma pacata cidade dinamarquesa, tornou-se o epicentro da primeira crise de PFAS na Dinamarca. A descoberta casual de contaminação na carne bovina expôs uma ameaça silenciosa que mobiliza hoje cientistas e cidadãos em toda a Europa

A paisagem serena de Korsør, na costa dinamarquesa, com as suas vacas a pastar, escondia durante décadas uma realidade sombria. A descoberta, em 2021, de níveis perigosos de PFAS – substâncias perfluoroalquiladas – na carne proveniente daqueles campos transformou a localidade num caso de estudo tristemente célebre. Kenneth Nielsen, professor de biologia e então presidente da Associação de Pastagem de Korsør, recorda o momento em que um jornalista o alertou para uma possível contaminação. A incredulidade inicial deu lugar ao choque quando os resultados das análises confirmaram o pior: a carne era imprópria para consumo. “Foi o fim de semana mais aterrador da minha vida”, confessa Nielsen. “Ficámos a pensar no que teríamos feito às nossas famílias.”

O pânico inicial foi agravado pelo desconhecimento generalizado. Quando contactou o seu médico, a resposta foi um silêncio incómodo. “Disse-lhe: tenho PFAS no corpo – o que devo fazer? Ela respondeu que não me podia ajudar. Ninguém sabia o que era a PFAS ou como tratá-la. Ficámos sozinhos.” Esta ausência de respostas catapultou Nielsen para uma busca obstinada por esclarecimentos que, de forma indireta, ajudou a colocar o tema na agenda pública.

Hans Peter Arp, químico ambiental do Instituto Geotécnico da Noruega, esclarece a natureza insidiosa destes compostos. “As PFAS são móveis, persistentes e tóxicas. São frequentemente designadas por produtos químicos eternos porque não se degradam no ambiente e podem acumular-se nos organismos”. Ao contrário de outros tipos de poluição, esta é invisível. “Não se assemelha a uma paisagem apocalíptica. As PFAS entram nas plantas, mas não as matam. Não se veem, mas os animais – e as pessoas – ficam contaminados”.

A crise de Korsør funcionou como um alerta continental e catalisou a ação científica. No seio do projeto ARAGORN, financiado pela União Europeia, a localidade dinamarquesa é considerada um “local zero”, um ponto de partida para aprender a lidar com esta contaminação silenciosa. Xenia Trier, coordenadora do projeto, sublinha a abordagem de cocriação. “Trabalhamos com peritos locais, membros da comunidade e proprietários dos terrenos para identificar as suas preocupações e objetivos. Só depois combinamos isso com o nosso conhecimento técnico”. Esta metodologia assegura que as soluções são realistas e eficazes, evitando a aplicação de fórmulas únicas que ignoram o contexto local.

O trabalho de projetos como o ARAGORN alimentou diretamente a ação política europeia. Em outubro de 2025, a UE adotou a sua primeira Diretiva de Monitorização e Resiliência do Solo, uma legislação histórica que obriga os Estados-membros a monitorizar a saúde do solo e a cartografar locais contaminados. “Ainda estamos no início”, admite Trier. “Precisamos de um quadro harmonizado para que os países atuem de forma coerente, não apenas onde a contaminação já foi detetada, mas para prevenir novos casos”.

A prevenção é, contudo, o campo de jogo decisivo. Hans Peter Arp é perentório: “As fábricas que produzem PFAS precisam de reduzir as suas emissões ou, idealmente, deixar de as produzir e fabricar outra coisa”. Enquanto isso, avança a cartografia de dezenas de locais por toda a Europa que poderão albergar contaminação por PFAS, um processo inspirado na investigação transfronteiriça do Forever Pollution Project.

Quatro anos depois, Korsør permanece um aviso. A terra é monitorizada e começaram alguns testes de remediação, mas para Kenneth Nielsen o impacto é duradouro. “Comi desta carne durante 17 anos. Não se vê a PFAS, não cheira – mas está dentro de nós. Isto muda a forma como olhamos para a nossa casa, a nossa comida, até para o nosso país”. A sua luta, agora, é para que a sua história sirva a outros. “Se a nossa história significar que mais ninguém terá de passar por isto, então pelo menos algo de bom resultou dela”.

Referências bibliográficas:
Mapping the unseen: how Europe is fighting back against invisible soil pollution. 20/11/2025, youris.com. Disponível em: https://aragorn-horizon.eu/mapping-the-unseen-how-europe-is-fighting-back-against-invisible-soil-pollution/

NR/HN/AlphaGalileo

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