Resíduos verdes: do risco ao recurso

23 de Novembro 2025

Investigadores noruegueses uniram-se à indústria floral para transformar cortes e plantas murchas num recurso seguro. O projeto analisa a degradação de pesticidas durante tratamentos como a compostagem e a digestão anaeróbia, visando fechar o ciclo de vida dos produtos verdes

Os restos de podas, as flores murchas e as plantas de interior que perdemos acabam, frequentemente, no contentor do lixo comum. Este desperdício, gerado por jardineiros, floristas e consumidores, esconde um problema: a presença de resíduos de pesticidas que podem persistir no ambiente. Um novo projeto de investigação, liderado pelo Instituto Norueguês de Bioeconomia (NIBIO), ambiciona agora dar uma nova vida a estes materiais, convertendo-os num recurso seguro e útil, sem riscos ecológicos.

A equipa, coordenada pela investigadora Trine Eggen, está a realizar um screening exaustivo aos pesticidas presentes em plantas e flores provenientes de produtores escandinavos, europeus e africanos. O cerne da questão reside em perceber como é que estas substâncias se degradam sob diferentes processos de tratamento. “Em condições anaeróbias, como as que existem na produção de biogás, os pesticidas podem sofrer transformações que não ocorrem com a mesma rapidez ou extensão durante a compostagem”, esclarece Eggen, sublinhando a complexidade da decomposição química.

Algumas das substâncias detetadas nos testes iniciais incluem pesticidas não aprovados pela União Europeia, um sinal de um problema mais vasto. “Há um mercado negro significativo de pesticidas que já não são permitidos ou que são produtos contrafeitos”, confirma a coordenadora. Esta realidade preocupa o setor, pois o uso destes fitofármacos ilegais pode introduzir compostos perigosos na cadeia de valor.

Do lado da indústria, a cadeia de floristas Mester Grønn, um dos parceiros-chave, já tinha iniciado esforços para reduzir a aplicação de pesticidas na sua produção. Para Henrik Jagland, Responsável de Ambiente da empresa, a motivação vai além da gestão de resíduos. “Para nós, é crucial assegurar que os desperdícios das flores e plantas que vendemos não representam um perigo para a natureza. Queremos que estes resíduos sejam tratados de um modo que lhes dê uma nova vida como composto de alta qualidade, em vez de terminarem como refugo”, afirma.

A solução poderá passar por uma abordagem em duas etapas, combinando a digestão anaeróbia com a compostagem tradicional. A Telemark Technologies, outro parceiro do consórcio, traz para a mesa a sua experiência em unidades de biogás de pequena escala. A hipótese em teste é que tratar primeiro o material vegetal num digestor anaeróbio, antes de o compostar, poderá ter um efeito positivo na quebra de algumas das moléculas mais persistentes.

O projeto vai comparar metodicamente várias vias de tratamento, desde a simples armazenagem em aterro — uma forma de compostagem fria — até à produção de biogás e à compostagem térmica, isoladamente ou em combinação. Através de ensaios práticos e amostragens sequenciais, a equipa espera destrinçar qual o caminho mais eficaz para desativar a carga química indesejada. “Se conseguirmos transformar estes resíduos verdes num composto seguro e rico em nutrientes, será um passo importante para uma economia mais circular no setor”, antevê Trine Eggen. Será uma forma de a beleza efémera de um ramo de flores frutificar numa segunda vida, longe dos aterros.

Referências Bibliográficas:
NIBIO. “Giving plant waste new life as a safe and sustainable resource”. 20 de novembro de 2025. Disponível em: https://nibio.no/en/news/giving-plant-waste-new-life-as-a-safe-and-sustainable-resource

NR/HN/AlphaGalileo

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