Cidades Ignoram Potencial de Soluções Baseadas na Natureza para Combater Alterações Climáticas, Alertam Especialistas

24 de Novembro 2025

Um consórcio global de 86 especialistas identificou 21 barreiras que impedem as cidades de aproveitarem o potencial de parques e rios para combaterem o calor e cheias. Conflitos com metas energéticas e subvalorização da biodiversidade estão entre os entraves

Um estudo internacional liderado pela Universidade de Surrey revela que as cidades estão a falhar a oportunidade de usar plenamente parques, rios, telhados verdes e outros elementos naturais para aumentar a sua resiliência climática. A investigação, a mais abrangente até à data, identifica 21 barreiras críticas e frequentemente negligenciadas que impedem a implementação eficaz da chamada infraestrutura verde e azul.

Apesar do reconhecimento dos seus benefícios para o arrefecimento urbano, controlo de cheias e bem-estar, a aplicação prática destas soluções naturais continua aquém das ambições políticas. O trabalho, que sintetiza mais de 500 artigos científicos e insights de 86 especialistas, aponta para obstáculos que vão desde conflitos com metas de energia renovável e consequências ambientais não intencionais, até à fragmentação regulatória e à subvalorização da biodiversidade e equidade social.

“Todos queremos ver mais parques, árvores e canais, pois esta infraestrutura é vital para arrefecer cidades, reduzir o risco de cheias e melhorar a saúde”, afirmou o Professor Prashant Kumar, diretor do GCARE e autor principal do estudo. “Contudo, a nossa investigação demonstra que a implementação fica, com demasiada frequência, a reboque das prioridades políticas.” Esta desconexão persiste mesmo perante o agravamento previsível de ondas de calor, inundações e poluição do ar.

A investigação, publicada na revista The Innovation, avança com doze recomendações para inverter o cenário. Entre elas, figuram a criação de estruturas de desenho adaptadas a cada contexto, investimento equitativo em bairros carenciados e a adoção de abordagens participativas que confiram às comunidades uma voz genuína na moldagem do seu ambiente. A Dra. Maria Athanassiadou, do Met Office do Reino Unido e coautora, sublinhou que o estudo “reúne perspetivas multidisciplinares para mostrar não apenas o que funciona, mas também por que razão por vezes não funciona”.

O trabalho posiciona a infraestrutura verde e azul como um caminho prático e acionável para a ação climática imediata, capaz de alinhar a redução de emissões com o reforço da resiliência urbana. Este esforço enquadra-se em iniciativas globais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Referências bibliográficas:
Kumar, P., et al. (2025). Overcoming the underexplored barriers for green-blue-infrastructure resilience. The Innovationhttps://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S266667582500387X

NR/HN/AlphaGalileo

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