Bastonário dos Enfermeiros absolvido: “Nunca esperei outro desfecho”

24 de Novembro 2025

Luís Filipe Barreira foi absolvo dos crimes de peculato e falsificação de documento. O bastonário reagiu com serenidade, afirmando que sempre acreditou na sua inocência e que a verdade acabou por prevalecer perante o tribunal

O bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Luís Filipe Barreira, viu-se livre da acusação que pesava sobre si. Absolvido esta terça-feira pelo Tribunal Central Criminal de Lisboa dos crimes de peculato e falsificação de documento, o líder da ordem profissional não escondeu uma certa placidez ao comentar a decisão. “Recebo esta decisão com serenidade e com o sentimento natural de quem sempre acreditou que a verdade prevaleceria. Nunca esperei outro desfecho”, atirou, num escrito enviado à agência Lusa.

A sua convicção, disse, manteve-se inabalável desde o primeiro instante. Barreira, de 51 anos, sempre se agarrou à tese de que o processo judicial viria a comprovar a sua versão dos factos: a de que não cometeu qualquer comportamento ilícito. O caso, que remonta a 2016, girava em torno do alegado desvio de 63 mil euros da associação profissional através do recebimento de ajudas de custo por viagens que, segundo o Ministério Público, seriam fictícias. Na altura dos factos, o atual bastonário desempenhava as funções de vice-presidente do Conselho Diretivo.

O coletivo de juízes, presidido por Armandina Silva Lopes, entendeu que não estavam reunidos os elementos de prova necessários para uma condenação. No fim, prevaleceu uma “dúvida séria e razoável” sobre a prática dos crimes. A sentença arrasta assim para a mesma solução de absolvição a antiga bastonária Ana Rita Cavaco, de 49 anos, e outros onze arguidos ligados ao primeiro dos seus dois mandatos à frente da instituição.

Num tom que alternou entre o alívio e a reafirmação do compromisso com a classe, Barreira não deixou de agradecer aos que, garante, nunca deixaram de confiar no seu percurso. “Mesmo nos momentos mais difíceis”, salientou. Agora, desenharca-se um novo capítulo, que ele promete enfrentar com “redobrada determinação”. O foco, assegura, mantém-se inalterado: trabalhar para valorizar a profissão de enfermagem e contribuir para um sistema de saúde mais preparado para o futuro.

A acusação tinha sido formalizada em janeiro de 2023, com o julgamento a ter início apenas dois anos depois, em janeiro de 2025. Um desfecho judicial que encerra um longo périplo na justiça para todos os intervenientes.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

O relatório OCDE e o resto: o que os números da saúde não mostram

Praticamente toda a população portuguesa tem cobertura para um conjunto central de serviços de saúde, atingindo a universalidade. Contudo, apenas 58% dos cidadãos dizem estar satisfeitos com a disponibilidade de cuidados de qualidade, um valor que fica abaixo da média dos países mais desenvolvidos

Prevenção em Contraciclo: Os Dois Rostos da Qualidade da Saúde em Portugal

O relatório “Health in a Glance 2025” da OCDE revela um sistema de saúde português com contrastes. Enquanto a adesão ao rastreio do cancro da mama, com 55,5%, fica aquém da média da OCDE, a prescrição de antibióticos mantém-se elevada, sublinhando desafios antigos na prevenção de doenças e no uso prudente de medicamentos

Assimetrias Regionais em Saúde Desenham Dois Países Diferentes Dentro de Portugal

Um retrato detalhado do sistema de saúde português revela um país cindido por assimetrias regionais profundas. Enquanto o litoral concentra hospitais e especialistas, o interior enfrenta desertificação médica, acessos limitados e piores resultados de saúde, desde uma menor esperança de vida a uma maior mortalidade prematura. As políticas públicas existentes são apontadas como insuficientes para travar este fosso, que espelha desigualdades socioeconómicas

Disparidades de género na saúde: Homens morrem mais cedo, mulheres vivem mais anos doentes

Em Portugal, como no resto da OCDE, os homens vivem em média menos 5,8 anos do que as mulheres, mas o paradoxo de género revela-se nos detalhes: elas passam uma proporção significativamente maior da sua vida em pior estado de saúde. Esta dupla realidade, com os homens a morrerem mais cedo de causas externas e doenças cardiovasculares e as mulheres a carregarem um fardo pesado de doenças crónicas e incapacitantes, desafia os sistemas de saúde a desenvolverem respostas mais direcionadas

Saúde dos Profissionais de Saúde: O Elo Mais Fraco do Sistema em Portugal

O relatório da OCDE revela uma crise silenciosa a minar o SNS: o esgotamento extremo dos seus profissionais. Com 47% dos médicos e 52% dos enfermeiros com burnout, Portugal destaca-se negativamente na Europa. Este não é apenas um problema de bem-estar individual, mas uma ameaça direta à qualidade e segurança dos cuidados de saúde prestados à população

Relatórios internacionais alertam para dupla desigualdade na saúde: entre géneros e entre ricos e pobres

Portugal observa uma transformação subtil na forma como encara a população mais velha. Para lá dos números, ganham corpo iniciativas que procuram responder ao desafio do isolamento e da inatividade, envolvendo autarquias, instituições de solidariedade e os próprios idosos na construção de respostas que vão do exercício físico ao apoio comunitário. Um movimento que tenta, devagar, mudar uma cultura

Literacia em saúde digital: novo fosso geracional em Portugal

A transição digital em saúde, promessa de eficiência, está a criar uma nova forma de exclusão em Portugal. Com 38% dos idosos incapazes de usar as plataformas, o fosso geracional ameaça o acesso aos cuidados. Da marcação de consultas à renovação de receitas, a falta de literacia digital deixa para trás os mais vulneráveis, transformando a inovação numa barreira. Urge humanizar a digitalização

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights