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O intestino alberga um intricado sistema nervoso, uma rede por vezes designada como “segundo cérebro”, e uma nova investigação vem agora desvendar o seu papel crucial como maestro da resposta imunitária. Cientistas da Fundação Champalimaud (FC) descobriram, em modelos murinos, que estes neurónios possuem a capacidade notável de comandar as defesas do organismo, ditando se estas devem atacar uma ameaça ou, em alternativa, concentrar-se no trabalho de reparação.
O estudo, publicado na Nature Immunology, descreve uma conversa molecular até agora desconhecida entre o sistema nervoso entérico, as células epiteliais que revestem o intestino e as células imunitárias. “O intestino está longe de ser um mero tubo digestivo. É um palco de atividade frenética onde os sistemas nervoso e imunitário negociam constantemente”, contextualiza Henrique Veiga-Fernandes, investigador sénior do Laboratório de Imunofisiologia da FC. A equipa não só identificou este triálogo como conseguiu decifrar os sinais moleculares que o tornam possível, uma linguagem química que orienta o comportamento das células de defesa.
Esta descoberta surge no rescaldo do Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina de 2025, que distinguiu trabalhos fundamentais sobre os mecanismos de tolerância e equilíbrio do sistema imunitário. O trabalho de Veiga-Fernandes e da sua equipa, incluindo os primeiros autores Sérgio Lopes e Filipa Cardoso, encaixa-se precisamente nesse puzzle científico mais amplo: perceber como o corpo decide entre a guerra e a reconstrução.
A comunicação acontece através de um sistema de recetores específicos presentes nos neurónios intestinais. Quando detetam um determinado sinal, estes neurónios emitem instruções que alteram o comportamento das células epiteliais vizinhas. Estas, por sua vez, libertam moléculas mensageiras que atuam sobre populações-chave de células imunitárias, orientando-as para uma função de ataque ou de reparação dos tecidos. É como se o sistema nervoso intestinal mudasse as agulhas, desviando a resposta imunitária para um caminho ou para o outro, consoante as necessidades do momento.
O que torna esta descoberta particularmente relevante é o facto de o mesmo sistema de recetores estar presente nos seres humanos. Esta semelhança sugere que a manipulação deste eixo de comunicação neuro-imune poderá abrir portas a novas abordagens terapêuticas para uma panóplia de condições, desde doenças inflamatórias intestinais até a infeções e mesmo a certos tipos de cancro com origem em processos inflamatórios crónicos. O caminho é longo, mas a equipa encontrou um novo interlocutor na complexa rede de decisões do nosso corpo.
O artigo completo, “Enteric neurons and epithelial cells engage in a neuroimmune dialog to control tissue repair”, está disponível em: https://doi.org/10.1038/s41590-024-02023-8
PR/HN


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