Paolo Bonanni no AiB: “Precisamos de um calendário de vacinação para a vida.”

11/25/2025
No Encontro do Adult Immunization Board (AIB) a decorrer em Lisboa, o Professor Paolo Bonanni, Co-chair do AIB e Professor Catedrático de Higiene na Faculdade de Medicina e Diretor da Escola de Especialização para Médicos em Higiene e Medicina Preventiva da Universidade de Florença, Itália, analisa o percurso português na vacinação de adultos. Num diálogo exclusivo, parte da sólida base pediátrica do país para defender um calendário único de vacinação ao longo da vida e sublinha a importância de os decisores políticos encararem a imunização como um investimento de saúde pública com retorno económico e social comprovado a médio prazo

HealthNews (HN) – Enquanto observador internacional e especialista em políticas de vacinação, qual é a sua avaliação geral do plano e da implementação da vacinação de adultos em Portugal, quando comparado com outros países europeus?

Paolo Boninni (PB) – Portugal tem uma longa tradição de boa cobertura vacinal nas crianças e, nesse aspeto, está a ter um excelente desempenho. Contudo, para a vacinação de adultos, os sinais podem mudar. A cobertura para a gripe, por exemplo, compete com a de outros meios, o que significa que a taxa pode ser diferente. Há vacinas importantes para os adolescentes e adultos que precisam de ser introduzidas e implementadas com mais força em Portugal, como a da herpes zóster, e os reforços periódicos contra o tétano, difteria e tosse convulsa. A tosse convulsa é uma doença que pode ocorrer várias vezes ao longo da vida, daí ser crucial manter a proteção. As novas vacinas de tecnologia mais recente, como as contra o vírus respiratório sincicial (RSV) ou a pneumocócica, são muito importantes para a população mais idosa e devem ser integradas.

HN – Como é que o sucesso notável de Portugal na vacinação pediátrica pode ser estrategicamente replicado para a vacinação de adultos, e que aspetos são intransponíveis devido às diferenças inerentes entre os dois grupos?

PB – A vacinação pediátrica é, de certa forma, mais fácil de organizar. Dá-se as mesmas coisas à mesma população, e elas vão aos serviços de vacinação. Com os adultos, a coisa complica-se um pouco. Temos inúmeras indicações de acordo com a idade e com condições de saúde específicas. Penso que o que é bom no exemplo pediátrico para Portugal é a confiança. É preciso construir a mesma confiança que existe na vacinação infantil para a vacinação de adultos, para que as autoridades sejam vistas como credíveis. Claro que há diferenças. Por vezes é difícil perceber como organizar a oferta de vacinas para esta população. Sei que em Portugal existe uma rede de farmácias, que é um bom canal para disponibilizar vacinas, mas é preciso integrar isso com os cuidados de saúde primários. O essencial é que, por vezes, temos a recomendação, mas a cobertura é baixa. E como tiveram um bom exemplo com a vacina da gripe, deveriam tentar replicar o que foi feito bem aí.

HN – Do ponto de vista do AIB, qual considera ser o papel mais crucial que os dados de vigilância e cobertura vacinal devem desempenhar para convencer os decisores políticos a investirem mais na imunização de adultos?

PB – Estamos a tentar passar um conceito importante: o dinheiro gasto em vacinação não é dinheiro desperdiçado, é dinheiro investido. E tem um retorno significativo. Só é preciso considerar que é um investimento a médio e longo prazo. Se se pensar em recuperar o investimento em seis meses, não se percebe a lógica. Para algumas infeções respiratórias, como a gripe ou o RSV, o retorno pode ser mais imediato. No geral, os estudos mostram que, por cada euro investido em vacinação, podem obter-se vinte euros de volta em custos evitados e em maior produtividade. O problema dos sistemas de saúde é que tendem a pensar apenas no curto prazo. Não falo em vinte anos, falo em um, dois, três anos. É preciso convencer os decisores de que este é um dos melhores usos para os recursos escassos que temos. Na área terapêutica, quantas intervenções existem que devolvem o dinheiro que se gastou? O ponto final é que temos de apoiar a vacinação. A necessidade de imunização não é uma opinião minha, é a posição da Organização Mundial de Saúde: as vacinas são, a seguir à água potável, a medida mais importante para melhorar a saúde das populações. É um facto.

HN – E a questão de um plano nacional único versus planos separados para crianças e adultos?

PB – Pelo que percebi hoje, o vosso calendário de vacinação é essencialmente para crianças, e há apenas alguns documentos para adultos. A nossa conceção é que a vacinação é uma necessidade ao longo de toda a vida. Deve começar com a criança e continuar com o adolescente, o adulto e o idoso. Não precisamos de documentos separados, mas sim de os integrar num único calendário vacinal. Um calendário para a vida, simplesmente.

 

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Doenças cardiovasculares custam 282 mil milhões de euros à União Europeia

A União Europeia enfrenta um desafio significativo com as doenças cardiovasculares (DCV), que continuam a ser a principal causa de morte e incapacidade no território comunitário. Um relatório recentemente divulgado, antecedendo o lançamento do Plano Corações Seguros, revela que estas doenças são responsáveis por um terço de todas as mortes anuais na UE e afetam mais de 60 milhões de pessoas.

Universidade Católica Portuguesa lança curso pioneiro em Medicina do Sono Pediátrico

A Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (FM-UCP) vai iniciar a primeira edição de um curso avançado dedicado ao estudo e prática clínica do sono na infância, uma formação pioneira em Portugal. O curso, que arranca a 16 de janeiro, será ministrado em formato b-learning e em inglês, com um carácter internacional.

Ordem dos Nutricionistas cria Fundo de Apoio à Formação para profissionais desempregados

A Ordem dos Nutricionistas lançou, pela primeira vez, um Fundo de Apoio à Formação destinado a apoiar os profissionais de nutrição que se encontrem em situação de desemprego. Esta iniciativa surge no âmbito do Dia do Nutricionista, celebrado a 14 de dezembro, e tem como objetivo possibilitar a aquisição de ferramentas que promovam uma prática profissional atualizada e baseada na evidência científica.

Helena José, enfermeira, professora e presidente da Escola Superior de Saúde Atlântica (ESSATLA), foi distinguida pela Ordem dos Enfermeiros com o prémio “Valor e Excelência” na categoria “Docência e Formação”. 

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights