![]()
HealthNews (HN) – Enquanto observador internacional e especialista em políticas de vacinação, qual é a sua avaliação geral do plano e da implementação da vacinação de adultos em Portugal, quando comparado com outros países europeus?
Paolo Boninni (PB) – Portugal tem uma longa tradição de boa cobertura vacinal nas crianças e, nesse aspeto, está a ter um excelente desempenho. Contudo, para a vacinação de adultos, os sinais podem mudar. A cobertura para a gripe, por exemplo, compete com a de outros meios, o que significa que a taxa pode ser diferente. Há vacinas importantes para os adolescentes e adultos que precisam de ser introduzidas e implementadas com mais força em Portugal, como a da herpes zóster, e os reforços periódicos contra o tétano, difteria e tosse convulsa. A tosse convulsa é uma doença que pode ocorrer várias vezes ao longo da vida, daí ser crucial manter a proteção. As novas vacinas de tecnologia mais recente, como as contra o vírus respiratório sincicial (RSV) ou a pneumocócica, são muito importantes para a população mais idosa e devem ser integradas.
HN – Como é que o sucesso notável de Portugal na vacinação pediátrica pode ser estrategicamente replicado para a vacinação de adultos, e que aspetos são intransponíveis devido às diferenças inerentes entre os dois grupos?
PB – A vacinação pediátrica é, de certa forma, mais fácil de organizar. Dá-se as mesmas coisas à mesma população, e elas vão aos serviços de vacinação. Com os adultos, a coisa complica-se um pouco. Temos inúmeras indicações de acordo com a idade e com condições de saúde específicas. Penso que o que é bom no exemplo pediátrico para Portugal é a confiança. É preciso construir a mesma confiança que existe na vacinação infantil para a vacinação de adultos, para que as autoridades sejam vistas como credíveis. Claro que há diferenças. Por vezes é difícil perceber como organizar a oferta de vacinas para esta população. Sei que em Portugal existe uma rede de farmácias, que é um bom canal para disponibilizar vacinas, mas é preciso integrar isso com os cuidados de saúde primários. O essencial é que, por vezes, temos a recomendação, mas a cobertura é baixa. E como tiveram um bom exemplo com a vacina da gripe, deveriam tentar replicar o que foi feito bem aí.
HN – Do ponto de vista do AIB, qual considera ser o papel mais crucial que os dados de vigilância e cobertura vacinal devem desempenhar para convencer os decisores políticos a investirem mais na imunização de adultos?
PB – Estamos a tentar passar um conceito importante: o dinheiro gasto em vacinação não é dinheiro desperdiçado, é dinheiro investido. E tem um retorno significativo. Só é preciso considerar que é um investimento a médio e longo prazo. Se se pensar em recuperar o investimento em seis meses, não se percebe a lógica. Para algumas infeções respiratórias, como a gripe ou o RSV, o retorno pode ser mais imediato. No geral, os estudos mostram que, por cada euro investido em vacinação, podem obter-se vinte euros de volta em custos evitados e em maior produtividade. O problema dos sistemas de saúde é que tendem a pensar apenas no curto prazo. Não falo em vinte anos, falo em um, dois, três anos. É preciso convencer os decisores de que este é um dos melhores usos para os recursos escassos que temos. Na área terapêutica, quantas intervenções existem que devolvem o dinheiro que se gastou? O ponto final é que temos de apoiar a vacinação. A necessidade de imunização não é uma opinião minha, é a posição da Organização Mundial de Saúde: as vacinas são, a seguir à água potável, a medida mais importante para melhorar a saúde das populações. É um facto.
HN – E a questão de um plano nacional único versus planos separados para crianças e adultos?
PB – Pelo que percebi hoje, o vosso calendário de vacinação é essencialmente para crianças, e há apenas alguns documentos para adultos. A nossa conceção é que a vacinação é uma necessidade ao longo de toda a vida. Deve começar com a criança e continuar com o adolescente, o adulto e o idoso. Não precisamos de documentos separados, mas sim de os integrar num único calendário vacinal. Um calendário para a vida, simplesmente.



0 Comments