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HealthNews (HN) – Tendo em conta a sua apresentação sobre a vacinação de adultos mais velhos, que estratégias específicas e comprovadas considera mais eficazes para aumentar a cobertura vacinal neste grupo etário em Portugal?
Sofia Duque (SD) – A estratégia nuclear, a meu ver, passa por ter um Programa Nacional de Vacinação mais inclusivo, que não se fique pelas crianças. O nosso programa pediátrico é um case study de sucesso, com taxas de cobertura elevadíssimas e, sobretudo, um reflexo da confiança que as pessoas depositam no sistema. Esse é um legado que estamos a desperdiçar. Atualmente, para os mais velhos, só a vacina do tétano e difteria está verdadeiramente no programa. As outras aparecem em recomendações à parte, documentos soltos que não têm a mesma força. A simples presença de uma vacina naquele quadro oficial, mesmo que não seja totalmente gratuita, mas com comparticipação, já sinaliza a sua importância, aumenta a confiança e, por arrasto, a adesão. É uma questão de visibilidade e de priorização.
HN – Quais são, na sua perspetiva, os maiores obstáculos logísticos e de comunicação na vacinação de idosos em Portugal, e como podem ser superados?
SD – Para além da questão económica, que se resolve com modelos de comparticipação inteligentes, a Acessibilidade geográfica e temporal é um entrave sério. Muitos centros de saúde não são próximos para quem tem problemas de mobilidade ou depende de familiares com horários de trabalho rígidos. Alargar a vacinação às farmácias, com horários mais flexíveis, seria um passo enorme. Depois, há o muro da literacia. A maioria dos portugueses tem pouca literacia em saúde, e os mais idosos, em particular, porque estes temas não foram prioritários na sua formação. Estamos perante uma população que atinge idades que antes não eram comuns, o que traz novos cenários de risco. As doenças infeciosas podem descompensar tudo, a qualidade de vida, a autonomia. Explicar isto, com tempo e paciência, é meio caminho andado. É um trabalho de formiguinha, mas incontornável.
HN – Como é que a experiência clínica num hospital privado como o CUF Descobertas pode informar e enriquecer as estratégias nacionais de vacinação de adultos, particularmente no que diz respeito à acessibilidade e à confiança do doente?
SD – No contexto privado, consigo ter um contacto muito personalizado e global com o doente, sobretudo com os mais velhos. Na consulta de Geriatria, olhamos para a pessoa no seu todo, não apenas para as doenças, mas para os aspetos psicossociais. E nesse âmbito, a conversa sobre vacinação surge de forma muito natural. Conseguimos explicar o risco individual, a possibilidade de prevenção, e prescrever com base num esquema ideal, que pode ir além do que o Programa Nacional hoje cobre, como a zona ou o vírus respiratório sincicial. As pessoas, quando percebem o benefício, aderem com muito mais facilidade. O segredo está em ter tempo. Tempo para falar, para ouvir, para desfazer mitos. Com a minha população, consigo taxas de cobertura bastante satisfatórias para uma gama alargada de vacinas. Isto demonstra que a relação de confiança, aliada a uma recomendação clara e contextualizada, é um motor poderoso que poderia ser mais aproveitado a nível nacional.



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