Falta de autonomia nos Centros de Investigação Clínica e lacunas nas competências digitais preocupam faculdades de medicina

26 de Novembro 2025

A inovação na saúde enfrenta dois grandes obstáculos em Portugal: a limitada autonomia dos Centros de Investigação Clínica (CIC) e a insuficiente integração de competências digitais nos currículos das faculdades de medicina. 

Estes dados foram revelados no Barómetro de Inovação Clínica 2025, que por primeira vez incluiu as direções e associações de estudantes de dez faculdades de medicina, além de 48 entidades hospitalares.

Apesar do reconhecimento institucional da importância da inovação digital, há um desfasamento acentuado entre a prioridade atribuída e a perceção dos estudantes e professores sobre a preparação digital dos futuros médicos. Mais de metade das associações de estudantes consideram insuficiente a formação na área digital, enquanto as direções classificam esta preparação como uma prioridade muito elevada. Contudo, 67% dos estudantes consideram que os alunos estão pouco ou moderadamente preparados para a prática digital, refletindo também uma perceção de capacitação docente insuficiente por parte de 44% dos estudantes.

A inclusão de conteúdos como inteligência artificial, simuladores digitais e sistemas de apoio à decisão clínica é consensual, mas apenas metade das faculdades avançou para áreas mais complexas, como Big Data e análise de dados clínicos. Apesar da existência de centros de simulação clínica digital em todas as faculdades, áreas emergentes como telemedicina, cibersegurança e ética digital ainda apresentam limitações significativas. A qualidade dos recursos tecnológicos é também vista de forma divergente: enquanto 37% das direções os consideram adequados ou totalmente adequados, mais de metade dos estudantes classificam-nos como pouco ou moderadamente adequados.

No que respeita à investigação clínica, os CIC continuam limitados por modelos de gestão que não lhes permitem contratar equipas nem definir incentivos de forma autónoma, o que compromete a agilidade necessária para competir a nível internacional. Embora valorizados pelas administrações hospitalares e com colaboração ativa com a indústria farmacêutica, os CIC mantêm uma articulação muito limitada com associações de doentes e a sociedade, o que prejudica a sua visibilidade e impacto social. A descentralização dos ensaios clínicos e o aumento da literacia da população continuam a ser áreas pouco valorizadas e com baixo investimento.

O Barómetro destaca ainda que, apesar de todas as direções incentivarem projetos de investigação e inovação, nenhuma associação de estudantes reconhece que a formação atual contribua para o desenvolvimento de competências empreendedoras. O principal obstáculo à integração de novas temáticas digitais é a falta de tempo nos planos curriculares, apontada por cerca de três quartos das direções e associações de estudantes. O financiamento não é considerado limitador, reforçando a necessidade urgente de reorganização curricular.

Relativamente ao despacho de 2024, que prevê medidas para reforçar a autonomia dos CIC, a sua implementação ainda está longe de ser plena. Quase metade dos centros não pretende utilizar as medidas previstas, e apenas cinco avançaram com processos para se constituírem como associações de direito privado sem fins lucrativos, dos quais dois já foram aprovados.

Estes resultados evidenciam uma distância significativa entre as intenções estratégicas e a capacidade real de execução na inovação clínica e formação médica em Portugal, sublinhando a urgência de medidas concretas para reforçar a autonomia dos centros de investigação e modernizar os currículos das faculdades de medicina.

lusa/HN

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