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Nuno Jacinto, presidente da APMGF, afirmou que “é impossível fazer um balanço global [destes dois anos] porque há muitas diferenças de unidade para unidade”, apontando que estas diferenças resultam, em grande parte, da cobertura desigual por médicos de família, que “provoca uma integração muito diferente nos vários locais”.
Em entrevista à agência Lusa, nas vésperas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) completar dois anos de cobertura nacional em modelo de ULS, Nuno Jacinto recordou o receio inicial dos cuidados de saúde primários de serem engolidos pelos cuidados hospitalares. “Em alguns sítios isso foi evitado, em outros não. As dificuldades não são iguais. Em muitos locais não se terá provado o benefício deste novo modelo de funcionamento e até pode haver situações que ficaram mais complicadas do que antes, nomeadamente a nível de gestão de processos internos, aprovisionamento, recursos humanos, sistemas de informação. Em outros, efetivamente, terá havido ganhos e melhorias”.
Quanto à distribuição regional, o presidente da APMGF referiu que “em Lisboa e Vale do Tejo, onde a cobertura por médico de família é menor, tem havido, obviamente, muito mais dificuldades”. Já na região Norte, apesar de uma estrutura mais forte dos cuidados de saúde primários, “muitos procedimentos administrativos, de aprovisionamento de recursos humanos, burocráticos já estavam mais afinados e com a passagem para o ULS essas dificuldades acentuaram-se”.
Nuno Jacinto acrescentou ainda que nas ULS universitárias, que são muito grandes, existem maiores dificuldades. “Uma USF [Unidade de Saúde Familiar] ou uma UCSP [Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados] fica claramente mais perdida no meio de toda essa instituição do que ficará, por exemplo, numa ULS do Alentejo ou de Trás-os-Montes”.
O presidente da APMGF sublinhou que, apesar das dificuldades estarem relacionadas com realidades locais, “o país tem de encontrar um caminho independentemente de ciclos políticos”.
Desde 1 de janeiro de 2024, Portugal está inteiramente coberto por 39 ULS, numa reorganização que visa facilitar o acesso das pessoas e a sua circulação entre centros de saúde e hospitais, integrando estes sob uma única gestão. Paralelamente, desapareceram as Administrações Regionais de Saúde. Durante este período, a Direção-Executiva do SNS teve três diretores executivos e o país viveu diferentes legislaturas.
Nuno Jacinto destacou a necessidade urgente de um rumo estável para as ULS. “Já não digo para o longo prazo, mas pelo menos no curto e no médio prazo. Precisamos de alguma constância. Dissemos desde o início que as ULS, no ponto de vista teórico, têm as suas virtudes. Mas são precisas orientações, acompanhamento, algumas balizas e, paradoxalmente, uma maior autonomia por parte de cada conselho de administração, precisamente para poder dar este papel de relevo, quer aos cuidados de saúde primários, quer aos cuidados hospitalares”.
Para a APMGF, a gestão das ULS enfrenta “enormes dificuldades”, entre as quais “conselhos de administração sem autonomia para coisas básicas”, planos de desenvolvimento e organização que “tardam a ser aprovados” e mapas de pessoal “por aprovar ou desatualizados”. Estas situações “obviamente desanimam os profissionais”, segundo Nuno Jacinto.
O dirigente reforçou a falta de acompanhamento real e sistemático deste processo: “Vão havendo algumas coisas dispersas, mas não há um momento em que nos sentemos todos e se pergunte: ‘então nos vossos locais quais são as vossas dificuldades?’”. Lançou um desafio: “Vamos parar um bocadinho, sentar-nos à mesma mesa, se for preciso até durante vários dias. Todos: tutela, conselhos de administração, profissionais e responder ‘o que é que é importante? O que é que é preciso para resolver isto?’. Não podemos andar sempre a correr e a inventar soluções em cima do joelho, a criar medidas desconexas umas das outras” .
lusa/HN



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