Luso-canadiano lança livro sobre percurso no basebol e saúde mental

29 de Novembro 2025

O luso-canadiano Derek Marques relata em livro o percurso que o levou a tornar-se agente de basebol certificado pela Major League Baseball Players Association (MLBPA), após uma infância ligada ao futebol e marcada pela realidade da emigração portuguesa.

Filho de pais naturais das Caldas da Rainha, que emigraram há mais de 50 anos, Marques nasceu e cresceu em Oshawa, a cerca de 60 quilómetros a leste de Toronto, onde estudou informática no Durham College antes de trabalhar na área das tecnologias.

“Sempre gostei de desporto, mas cresci a ouvir que para ser agente era preciso ser advogado e achava que não era inteligente o suficiente para isso”, afirmou, em declarações à Lusa.

O primeiro contacto com atletas profissionais surgiu entre 2010 e 2016, através de um podcast em que entrevistava jogadores de várias modalidades.

“Falava com atletas da NHL sobre futebol e com jogadores dos Blue Jays sobre hóquei. Foi assim que comecei a criar a minha rede no desporto profissional”, disse o luso-canadiano, de 45 anos, enaltecendo que “essa experiência acabaria por abrir portas ao basebol”.

Em 2016, um agente norte-americano convidou-o a integrar uma agência em Chicago.

O luso-canadiano descobriu então que não era obrigatório ser advogado para representar jogadores.

“Foi como descobrir que o meu sonho afinal era possível. Fiz o exame do sindicato e fiquei certificado em três meses”, recordou.

A colaboração terminou quando percebeu que o agente enfrentava problemas judiciais nos Estados Unidos.

“Foi aí que percebi que tinha de seguir sozinho”, afirmou.

Em maio de 2018 fundou a sua empresa, a Lake Ridge Sports Management.

Representa atualmente cerca de 30 atletas, incluindo jogadores universitários e um atleta na Liga Norte Americana de Beisebol (MLB), Dane Myers, dos Miami Marlins.

O livro “Not the Only One”, lançado recentemente, resulta de dois anos de trabalho.

A obra descreve a forma como convive desde jovem com depressão, ansiedade e perturbação de personalidade obsessivo-compulsiva (OCPD).

“Sou extremamente organizado e funciono por padrões. Em vez de ver isso como um obstáculo, usei-o a meu favor para gerir dezenas de jogadores ao mesmo tempo”, explicou.

Mas reconhece que há um lado difícil: “Quando perco um jogador ou algo corre mal, a depressão e a ansiedade fazem tudo parecer pior”.

O autor recorda também a infância numa casa portuguesa em que o basebol não fazia parte do quotidiano.

“Basebol nunca foi mencionado em casa. O meu pai levava-me a jogos do Benfica e do Sporting quando íamos a Portugal, e a minha primeira memória é ver Maradona ganhar o Mundial”, contou.

“Crescer numa casa europeia nos anos 80 e 90 era muito diferente. A saúde mental não se discutia e eu nem sabia que aquilo que sentia tinha nome”, referiu.

Marques considera que o estigma em torno da saúde mental persiste, incluindo na comunidade portuguesa.

“As pessoas ainda não entendem verdadeiramente o que certas doenças significam. Dois diagnósticos iguais podem manifestar-se de formas completamente diferentes”, sublinhou.

No livro, o agente procura mostrar os bastidores da profissão e desfazer mitos.

“Quando digo que sou agente, perguntam-me se sou como o Jerry Maguire. A realidade é muito mais dura, manter jogadores, lidar com pressões e tentar entrar no circuito canadiano é extremamente difícil”, resumiu.

Derek Marques afirmou que a motivação central da obra é encorajar quem se sente bloqueado por dificuldades pessoais ou profissionais.

“Quero que as pessoas percebam que não estão sozinhas. Podemos realizar um sonho aos 20, 30, 40 ou 50 anos. E uma doença mental não tem de ser a razão para desistir”, concluiu.

lusa/HN

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