Mecanismo epigenético no intestino pode explicar aumento do risco de cancro com a idade

29 de Novembro 2025

Uma investigação internacional descobriu um padrão de envelhecimento epigenético no intestino, designado por deriva ACCA, que silencia genes cruciais. Este processo é impulsionado por défice de ferro e inflamação

Um estudo internacional revelou um mecanismo fundamental que explica o envelhecimento do tecido intestinal e o consequente aumento do risco de cancro coloretal. A descoberta centra-se num processo epigenético, uma espécie de camada de informação que se sobrepõe ao código genético, que se altera com o tempo, fazendo com que genes importantes fiquem silenciosos.

A investigação, publicada na Nature Aging, foi conduzida por uma equipa do Leibniz Institute on Aging – Fritz Lipmann Institute (FLI) na Alemanha, do Molecular Biotechnology Centre (MBC) e da Universidade de Turim, em Itália. Os cientistas identificaram um padrão específico de envelhecimento, a que chamaram “deriva ACCA” (Aging- and Colon Cancer-Associated), que se acumula progressivamente nas células estaminais do intestino. “Observamos um padrão epigenético que se torna cada vez mais evidente com a idade”, confirma Francesco Neri, professor da Universidade de Turim que liderou o estudo.

Este não é um processo uniforme. O intestino é revestido por criptas, pequenas glândulas que se originam de uma única célula estaminal. Quando essa célula-mãe sofre alterações epigenéticas, toda a cripta que dela deriva herda essa mesma “idade”. O tecido transforma-se assim numa colcha de retalhos, com áreas geneticamente mais jovens e outras que envelheceram precocemente. “Com o tempo, desenvolvem-se cada vez mais áreas com um perfil epigenético mais antigo no tecido”, esclarece Anna Krepelova, primeira autora do artigo. Através da divisão natural das criptas, estas regiões envelhecidas expandem-se de forma silenciosa ao longo dos anos.

No cerne desta deriva está um elemento surpreendente: o metabolismo do ferro. A equipa demonstrou que as células intestinais mais velhas absorvem menos ferro, ao mesmo tempo que libertam mais, criando um défice no núcleo celular. Este ferro é um cofator essencial para as enzimas TET, cuja função é remover marcas de metilação do ADN, impedindo que genes sejam desligados de forma inadequada. Sem ferro suficiente, as enzimas TET ficam paralisadas. “Quando não há ferro suficiente nas células, as marcações defeituosas permanecem no ADN. E as células perdem a capacidade de remover essas marcas”, detalha Krepelova. É este o interruptor que, uma vez accionado, inicia um efeito dominó de silenciamento genético.

O processo é ainda acelerado por dois outros fatores intrínsecos ao envelhecimento: a inflamação de baixo grau e o enfraquecimento da via de sinalização Wnt, crucial para a renovação das células estaminais. A combinação destes elementos atua como um acelerador da deriva epigenética.

Contudo, há um fio de esperança. Em experiências com organoides – minúsculos intestinos criados em laboratório –, os investigadores conseguiram travar e até reverter parcialmente este envelhecimento epigenético. Ao restabelecerem a importação de ferro ou ao activarem artificialmente a via Wnt, as enzimas TET recuperaram a sua atividade, começando a limpar as metilações em excesso. Isto sugere que o relógio epigenético do nosso intestino pode, em certa medida, ser manipulado. “Pela primeira vez, estamos a ver que é possível ajustar os parâmetros do envelhecimento que se encontram no núcleo molecular da célula”, conclui a investigadora.

Imagem: FLI / Kerstin Wagner

Referência Bibliográfica:
Krepelova, A., Rasa, M., Annunziata, F. et al. Iron homeostasis and cell clonality drive cancer-associated intestinal DNA methylation drift in aging. Nat Aging (2025). https://doi.org/10.1038/s43587-025-01021-x

NR/HN/AlphaGalileo

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Portugal, no documento “O Estado da Saúde Cardiovascular na União Europeia”: Baixa Mortalidade, mas Fatores de Risco Persistem

O relatório da OCDE “O Estado da Saúde Cardiovascular na UE”, tornado público hoje, analisa os padrões da doença na Europa. Portugal surge com uma mortalidade por doenças circulatórias das mais baixas do continente, um sucesso que se manteve mesmo durante a pandemia. No entanto, o país ainda enfrenta desafios significativos, como a gestão da diabetes, o consumo de álcool e a mortalidade prematura, especialmente entre os homens

Doenças cardiovasculares custam 282 mil milhões de euros à União Europeia

A União Europeia enfrenta um desafio significativo com as doenças cardiovasculares (DCV), que continuam a ser a principal causa de morte e incapacidade no território comunitário. Um relatório recentemente divulgado, antecedendo o lançamento do Plano Corações Seguros, revela que estas doenças são responsáveis por um terço de todas as mortes anuais na UE e afetam mais de 60 milhões de pessoas.

Universidade Católica Portuguesa lança curso pioneiro em Medicina do Sono Pediátrico

A Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (FM-UCP) vai iniciar a primeira edição de um curso avançado dedicado ao estudo e prática clínica do sono na infância, uma formação pioneira em Portugal. O curso, que arranca a 16 de janeiro, será ministrado em formato b-learning e em inglês, com um carácter internacional.

Ordem dos Nutricionistas cria Fundo de Apoio à Formação para profissionais desempregados

A Ordem dos Nutricionistas lançou, pela primeira vez, um Fundo de Apoio à Formação destinado a apoiar os profissionais de nutrição que se encontrem em situação de desemprego. Esta iniciativa surge no âmbito do Dia do Nutricionista, celebrado a 14 de dezembro, e tem como objetivo possibilitar a aquisição de ferramentas que promovam uma prática profissional atualizada e baseada na evidência científica.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights