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Cerca de um quinto das 2331 vagas abertas para a formação especializada de médicos no Serviço Nacional de Saúde (SNS) ficou por preencher. A Federação Nacional dos Médicos (FNAM) descreve o número como um sinal alarmante da perda de capacidade do SNS para atrair e reter profissionais, mesmo numa fase inicial das suas carreiras.
O processo de escolha, que envolveu 2375 candidatos e terminou esta sexta-feira, deixou sem ocupação um total de 466 postos. A presidente da FNAM, Joana Bordalo e Sá, explicou à Lusa que as especialidades de Medicina Geral e Familiar e de Medicina Interna registaram as maiores quebras. Curiosamente, a região de Lisboa e Vale do Tejo, aquela onde a carência de médicos de família é mais premente, concentra a maioria das vagas sobrantes para essa especialidade.
A Medicina Interna, considerada a espinha dorsal dos serviços de urgência, viu apenas metade das suas vagas serem preenchidas. “A confirmar-se, é um dado verdadeiramente preocupante”, admitiu a sindicalista.
Para além dos lugares que simplesmente não encontraram candidato, Bordalo e Sá alertou para outro fenómeno: cerca de 20% dos médicos que concorreram optaram por rescindir o vínculo com o SNS. Estes profissionais, segundo a sua leitura, estão a ser absorvidos pelo setor privado, pela prestação de serviços ou a procurar oportunidades no estrangeiro. “O SNS não está a perder médicos por acaso”, afirmou, apontando o dedo ao Governo de Luís Montenegro pela recusa em “criar condições” que incentivem a permanência.
Do recente congresso da federação saíram propostas concretas, sendo a reintegração do internato médico na carreira uma das bandeiras. Joana Bordalo e Sá salienta que os longos anos de formação especializada, que podem ir de cinco a sete, “não contam para nada” na progressão profissional dos médicos. A FNAM já enviou uma carta à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e à Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) a exigir uma revisão urgente do regime do internato.
Este ano, o processo de seleção foi marcado pela introdução de uma nova plataforma informática, desenvolvida no âmbito da desmaterialização do internato médico. A ACSS classifica a solução como um “passo importante” para a modernização, garantindo maior eficiência e transparência. Contudo, a falha na colocação de tantos recursos humanos essenciais lança uma sombra sobre esta modernização técnica, sublinhando problemas estruturais mais profundos. Os cerca de 11 mil internos representam um terço do total de médicos do SNS, o que torna o seu descontentamento uma questão vital para a sustentabilidade do sistema.
NR/HN/Lusa



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