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HealthNews (HN) – O projeto Talent-CGT propõe um modelo inovador de “ensinar o professor”. De que forma é que esta abordagem em cascata é mais eficaz para divulgar e consolidar o conhecimento sobre Terapias Celulares e Genéticas, comparando com métodos de formação tradicionais?
Sarta Ricardo (SR) – A missão do projeto Talent-CGT (https://talent-cgt.eu/) é capacitar professores e profissionais de saúde com as competências, programas e ferramentas digitais necessários para preparar a próxima geração de cientistas e técnicos superiores na área das terapias celulares e genéticas. O projeto reúne universidades, institutos politécnicos e parceiros industriais de vários países europeus, criando recursos de aprendizagem práticos, acessíveis e orientados para o futuro. Neste modelo de “ensinar o professor”, os docentes têm acesso direto a metodologias atualizadas, práticas laboratoriais e materiais didáticos já utilizados pelas instituições do consórcio ou criando novos conteúdos de lecionação. Esta abordagem garante qualidade, consistência e uma atualização científica contínua. Por exemplo, no início de novembro participei numa destas formações, dedicada ao tema “Epigenetic CRISPR/dCas9 editing”, na Avans Hogeschool, nos Países Baixos, uma das instituições parceiras do projeto. Essa experiência permitiu-me aprender técnicas e abordagens inovadoras que agora posso adaptar e aplicar nas aulas teóricas e práticas lecionadas aos com os meus próprios estudantes de biopatologia.
HN – Sabemos que já há 40 alunos de Ciências Farmacêuticas e Doutoramento em Ciências Biomédicas a receber esta formação. Como é que estes conteúdos específicos de CGT foram integrados e adaptados nas unidades curriculares existentes sem sobrecarregar os planos de estudo?
SR – Na fase 1, que termina em dezembro de 2025, os conteúdos de Terapias Celulares e Genéticas foram integrados nas unidades curriculares já existentes, assegurando a atualização dos programas sem aumentar a carga letiva. Em vez de criar novas disciplinas, modernizámos conteúdos já lecionados, incorporando materiais e metodologias alinhadas com os avanços mais recentes da área. Por exemplo, no Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas, estes temas foram incorporados na unidade curricular de Biologia Molecular. Nesta disciplina, parte das aulas teóricas e práticas passa agora a utilizar materiais didáticos fornecidos pelo projeto, permitindo introduzir conteúdos mais atuais e alinhados com as terapias do futuro. No caso dos estudantes de Doutoramento em Ciências Biomédicas, a integração foi feita na unidade curricular de Investigação. Aqui, os alunos são desafiados a desenvolver um projeto científico dedicado à descoberta de novas terapias celulares e genéticas, aplicadas a doenças como a diabetes ou o glioblastoma, entre outras. Na fase 2, que se desenvolverá até abril de 2027, daremos um passo mais estruturante com a criação de uma nova unidade curricular dedicada exclusivamente às Terapias Celulares e Genéticas, acessível a todos os estudantes e professores da CESPU. Esta unidade curricular será desenvolvida segundo princípios de ensino digital em rede, tirando partido de ambientes virtuais de aprendizagem que permitem uma maior flexibilidade, interação e acesso a recursos avançados. Além disso, esta abordagem irá promover o desenvolvimento de competências pedagógicas digitais nos docentes e formadores envolvidos, assegurando que estão preparados para utilizar eficazmente tecnologias educativas, criar e-atividades orientadas para a aprendizagem ativa e apoiar os estudantes na construção de competências essenciais para a futura prática profissional num contexto cada vez mais digital.
HN – O projeto enquadra-se na ambição europeia de liderar a nível mundial na área da terapia celular e genética. Qual é, na sua perspetiva, a posição competitiva de Portugal e, em concreto, da CESPU neste ecossistema europeu de inovação e investigação?
SR – A Europa tem assumido uma posição de liderança mundial no desenvolvimento de terapias celulares e genéticas, mas enfrenta ainda uma lacuna significativa de competências nesta área altamente especializada. Estima-se que, até 2030, cerca de 20% das vagas de trabalho no setor possam ficar por preencher se não forem reforçados os programas de formação e especialização. Projetos como o Talent-CGT surgem precisamente para colmatar esta necessidade, criando recursos educativos acessíveis e ferramentas digitais que capacitam docentes e formandos para o futuro da biotecnologia avançada. Portugal tem vindo a acompanhar esta dinâmica europeia e a fortalecer o seu papel no ecossistema de inovação em CGT. No caso particular da CESPU, a instituição beneficia de integrar a UCIBIO — uma unidade de investigação classificada como “Excelente” pela FCT e que reúne investigadores da Universidade do Porto e da Universidade NOVA de Lisboa. Esta rede combina competências em Química, Biologia e Engenharia, permitindo investigação de fronteira em áreas essenciais para as terapias celulares e genéticas, desde o nível molecular até às interações celulares. A integração da CESPU na UCIBIO representou um salto qualitativo na sua capacidade de investigação, de formação avançada e de participação em consórcios internacionais. A participação ativa da CESPU em projetos europeus, como o Talent-CGT, demonstra não só a sua competitividade científica, mas também o seu contributo direto para a preparação da próxima geração de profissionais em CGT. Assim, Portugal — e a CESPU em particular — encontram-se hoje numa posição muito sólida para colaborar e responder aos desafios da ambição europeia de liderança global neste domínio estratégico da medicina do futuro.
HN – Enquanto investigadora na área do cancro, como é que o seu trabalho no Toxicologic Pathology Research Lab influencia e é influenciado por este projeto educativo? Que aspetos da investigação em CGT considera mais urgentes transmitir aos futuros profissionais de saúde?
SR – O meu trabalho no Toxicologic Pathology Research Lab está intimamente ligado ao avanço das terapias celulares e genéticas, porque estudamos precisamente as alterações morfofuncionais que ocorrem nas células e tecidos quando expostos a agentes que podem ser terapêuticos ou tóxicos. Analisamos mecanismos de resistência, citotoxicidade, vias moleculares de lesão e identificamos biomarcadores que nos ajudam a prever efeitos adversos. Este conhecimento é fundamental para compreender como as novas terapias — especialmente as que envolvem edição genética ou células modificadas — se comportam no organismo. As terapias celulares e genéticas estão a transformar profundamente a forma como tratamos doenças complexas, incluindo o cancro e várias doenças autoimunes. Exemplos como as CAR-T cells ou as abordagens de edição genética aplicadas em tumores sólidos e hematológicos mostram já resultados promissores, com ensaios clínicos avançados em várias áreas. No entanto, estas terapias também trazem desafios importantes, como a gestão dos efeitos tóxicos, a avaliação dos efeitos secundários (off-target effects) e a compreensão das alterações celulares induzidas por estas intervenções altamente específicas. Por isso, considero urgente transmitir aos futuros profissionais de saúde não só o potencial terapêutico destas tecnologias, mas também os seus riscos, limitações e implicações éticas. Precisamos de formar profissionais capazes de interpretar alterações celulares e tecidulares associadas a estas terapias, compreender mecanismos de toxicidade e antecipar possíveis efeitos adversos. Integrar esta visão na formação é essencial para preparar a próxima geração de clínicos, investigadores e técnicos que irão trabalhar num contexto onde a terapia genética e celular fará parte da prática clínica habitual.
HN – O Talent-CGT tem uma segunda fase dirigida a estudantes e professores de Biologia do ensino secundário. Que desafios específicos antevê na tradução destes conceitos complexos para uma audiência mais jovem e que ferramentas didáticas estão a ser desenvolvidas para os ultrapassar?
SR – A introdução das terapias celulares e genéticas no ensino secundário é desafiante, mas muitos dos seus conceitos de base — como DNA, expressão génica, PCR ou princípios de edição genómica — já fazem parte do currículo atual. O verdadeiro desafio está em capacitar os professores, que têm acesso limitado a conteúdos atualizados sobre investigação, ensaios clínicos ou aplicações reais destas tecnologias. O Talent-CGT responde diretamente a este desafio ao formar professores do ensino secundário, fornecendo-lhes materiais didáticos atualizados, recursos digitais abertos, vídeos explicativos e atividades práticas simplificadas. Ao receberem esta formação, os professores tornam-se mediadores fundamentais: são eles que irão traduzir estes conceitos avançados para uma linguagem acessível aos jovens, mostrar a relevância destas tecnologias e despertar o interesse por novas profissões emergentes na biotecnologia e na saúde. Com esta abordagem, os alunos passam a ter contacto com a ciência mais atual e com as oportunidades profissionais do futuro.
HN – Para além do número de participantes formados (mais de 1000 até 2027), como é que o consórcio irá medir o verdadeiro impacto do Talent-CGT? Será através da criação de novos cursos, do número de projetos de investigação que daqui surjam, ou de outro tipo de indicadores?
SR – Para além do número de participantes formados, o consórcio Talent-CGT vai medir o impacto real do projeto através de indicadores que mostram transformação estrutural, capacidade de inovação e sustentabilidade a longo prazo. O objetivo não é apenas formar mais de mil pessoas até 2027, mas criar um verdadeiro ecossistema europeu capaz de responder às necessidades crescentes das terapias celulares e genéticas. O impacto será avaliado para além da data de término do projeto, por exemplo, pela criação de um sistema de ensino autossustentável através do programa Teach-the-Teacher, que permite que o conhecimento seja continuamente transmitido e atualizado mesmo após o fim do projeto. A produção de recursos digitais abertos e plataformas interativas é outro indicador essencial, porque garante que o conhecimento pode ser replicado e escalado em toda a Europa, incluindo regiões menos desenvolvidas. O consórcio irá também monitorizar a criação ou melhoria de estruturas de inovação — como hubs ou centros de empreendedorismo — que permitirão apoiar novas ideias, reforçar competências e aproximar a academia da indústria. A medição do impacto inclui ainda o número de parcerias estabelecidas com empresas e entidades públicas, a participação de estudantes e profissionais em programas de mentoria e o surgimento de startups apoiadas pelo projeto. Ao alcançar grupos muito diversos — estudantes, docentes, startups e ecossistemas regionais — o projeto cria oportunidades de emprego, estimula o empreendedorismo e reforça a competitividade global da Europa na área das terapias celulares e genéticas.
HN – O financiamento de 1,3 milhões de euros é um impulso crucial. No entanto, que estratégias estão a ser pensadas para garantir que o conhecimento e as redes criadas pelo Talent-CGT se mantenham ativas e continuem a evoluir para lá do período de financiamento do projeto?
SR – Embora o financiamento inicial de 1,3 milhões de euros seja fundamental, o consórcio já definiu várias estratégias para garantir que o conhecimento e as redes criadas pelo Talent-CGT continuem a crescer muito para além do período financiado. A prioridade é integrar de forma permanente os conteúdos de terapias celulares e genéticas nos currículos das instituições participantes, criando uma oferta formativa sustentável e uma geração contínua de profissionais qualificados. Para isso, serão estabelecidos papéis dedicados de docentes e técnicos especializados em CGT, desenvolvida uma estratégia de financiamento de longo prazo — combinando orçamentos institucionais, futuros programas europeus (como Horizon Europe e Erasmus+) e parcerias com a indústria e autoridades regionais — e expandido o uso de recursos digitais abertos para que outras instituições, especialmente em regiões menos servidas, possam adotar os materiais do projeto. O consórcio pretende ainda criar centros ou hubs de excelência em CGT dentro das instituições, reforçar ligações com parques de ciência e incubadoras, construir uma rede ativa de alumni e estabelecer métricas de acompanhamento a longo prazo, como a percentagem de escolas superiores que institucionalizam o currículo até 2030. A manutenção de plataformas digitais abertas e a colaboração com redes internacionais garantirão a escalabilidade e evolução contínua do projeto.
Entevista MMM



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