Ana Abecasis: “Estamos muito longe dos objetivos estabelecidos” para travar o VIH

12/01/2025
No Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, a Healthnews conversa com a Prof. Doutora Ana Abecasis, Diretora da Unidade de Saúde Pública Global do IHMT NOVA. Quase 40 anos após o seu aparecimento, a infeção por VIH mantém-se um desafio global. As metas da ONU para 2030 estão longe de ser alcançadas, com 1,3 milhões de novas infeções em 2024. A investigação em epidemiologia molecular revela padrões de transmissão distintos e a resistência aos fármacos é uma ameaça crescente. A equidade no acesso aos cuidados de saúde é apontada como fundamental para o controlo da pandemia

HN – No contexto do Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, como caracteriza a evolução epidemiológica da infeção por VIH a nível global, quase 40 anos após o seu aparecimento? Quais são os padrões de dispersão mais relevantes que a investigação do IHMT tem identificado atualmente?

AA – Em 2024, houve 1,3 milhões de novas infeções de VIH a nível global. As metas da UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o VIH/SIDA) para 2025, que tinham por objetivo acabar com a pandemia de VIH até 2030, estabeleciam que em 2025 não deveria haver mais de 370.000 novas infeções a nível global, o que significa que estamos muito longe dos objetivos estabelecidos. Na Europa, continua a haver muitos novos diagnósticos entre homens que têm sexo com homens mais jovens. Em Portugal, observamos igualmente infeções em homens heterossexuais mais velhos, que se revelam relevantes por estarem associados a um diagnóstico de infeção tardio. Em Portugal, mais de metade dos diagnósticos é realizada em indivíduos nascidos no estrangeiro. No continente africano, onde a taxa de novas infeções permanece elevada, observa-se um aumento de casos entre a população masculina e feminina mais jovem. No entanto, a proporção de infeções entre homens e mulheres é oposta à observada na Europa, onde se verifica uma predominância de infeções em mulheres.

HN – De que forma é que o rastreio de cadeias de transmissão do VIH, uma ferramenta de epidemiologia molecular, se torna um instrumento prático de saúde pública para a prevenção de novos casos em Portugal?

AA – Este tipo de abordagem, que usamos no nosso grupo de investigação, permite caracterizar com mais profundidade as cadeias de transmissão da infeção e a sua potencial associação com resistências aos antiretrovirais. Por exemplo, num estudo do nosso grupo, conseguimos caracterizar estas cadeias de transmissão em termos de distrito de residência dos diferentes membros dos clusters, permitindo saber se a infeção se transmite mais dentro dos distritos ou entre diferentes distritos. Noutro estudo, caracterizámos as infeções dos imigrantes em termos de origem, para perceber se adquiriam a infeção a partir de indivíduos portugueses ou indivíduos de outras nacionalidades. Percebemos, por exemplo, que o padrão de aquisição de infeções é diferente, quando comparamos indivíduos com origem no Brasil e indivíduos com origem em PALOPs. Outro exemplo é a aplicação destas cadeias de transmissão para compreender se as mutações de resistência do vírus estão a ser transmitidas entre grupos de indivíduos com determinados comportamentos de risco e se estas mutações se mantêm nas cadeias de transmissão por muito tempo.

HN – A resistência do VIH aos medicamentos é uma ameaça crescente. Como é que a investigação científica desenvolvida no Instituto, nomeadamente na área da genética do vírus, está a orientar a seleção de terapias mais eficazes e a influenciar as estratégias de saúde pública nacionais?

AA – Temos atuado a nível nacional , europeu e global na caracterização da epidemiologia molecular do vírus, utilizando estudos que incluem metodologias de investigação como a vigilância genómica, filodinâmica e reconstrução de cadeias de transmissão. Temos vários projetos em que estudamos a forma como o vírus se está a disseminar em determinados países europeus e a associação desta disseminação a mutações de resistência aos antiretrovirais. Esta abordagem permite, por um lado, fornecer evidências para o desenvolvimento de recomendações terapêuticas mais eficazes; e por outro lado guiar o desenvolvimento de estratégias de prevenção mais dirigidas, numa perspetiva micro. Esta perspetiva micro é cada vez mais importante, tendo em conta que os novos diagnósticos e os diagnósticos tardios surgem cada vez mais em indivíduos para os quais as estratégias de prevenção clássicas não parecem ter resultados. Por outro lado, no contexto africano, o cenário é bastante diferente. Aí implementámos estudos que visam ‘começar pelo princípio’, uma vez que aqui os indivíduos que vivem com VIH não têm acesso aos cuidados de saúde a que os europeus têm acesso. A terapêutica de primeira linha usada é selecionada com base naquilo que é oferecido pelo Fundo Global, que financia os tratamentos e por isso, não é dirigida às necessidades dos indivíduos. Por isso, desenvolvemos os projetos MARVEL e HITOLA, em que fazemos vigilância genómica da infeção associada a questionários socio-demográficos e clínicos em Angola, Cabo Verde, São Tomé Príncipe e Moçambique. Este projetos permitiram gerar dados que fornecem, em alguns destes países pela primeira vez, um panorama epidemiológico, clínico e genómico de resistências primárias aos antiretrovirais nestes países e que permitirão perceber se a terapêutica usada é eficaz. Queremos fazer o mesmo na Guiné-Bissau, onde os dados são ainda mais escassos, mas infelizmente ainda não conseguimos financiamento.

HN – Qual é o impacto concreto das desigualdades no acesso aos cuidados de saúde, tanto entre países como dentro das próprias populações, na disseminação da infeção e na nossa capacidade de alcançar os objetivos globais de controlo da doença para 2030?

AA – Em contextos com menor acesso aos cuidados de saúde e em que a vigilância genómica não é realizada, podem surgir, por exemplo, estirpes do vírus resistentes aos fármacos, que ficam por detetar. Com a enorme mobilidade das populações, estas rapidamente se disseminarão para outros países e poderão ser transmitidas a outros indivíduos, causando falhas terapêuticas e potenciação da disseminação da infeção. Assistimos a algo semelhante durante a pandemia de COVID 19, quando a variante Omicron surgiu em África, o que foi atribuído em parte à falta de acesso a vacinas. Esta variante tinha evoluído muito depressa e apresentava uma transmissibilidade aumentada relativamente às outras variantes. Ou seja, sempre que pensamos em doenças transmissíveis, temos que ter presente que o controlo das pandemias só pode ser pensado tendo presente uma perspetiva global, de equidade, de medidas de controlo e de acesso a cuidados de saúde.

HN – Enquanto Diretora da Unidade de Saúde Pública do IHMT, como é que integra as descobertas da investigação fundamental em VIH — desde a genética à epidemiologia — na conceção de políticas e programas de saúde prática, por exemplo, na área da Medicina do Trabalho?

AA – No trabalho que realizamos diariamente, tentamos sempre ter uma perspetiva de geração de evidências que sejam utilizáveis para o desenvolvimento de recomendações clínicas, estratégias, programas ou políticas de saúde. Apenas com essa visão faz sentido atuar. Por outro lado, temos tentado tornar a investigação que realizamos cada vez mais participativa, envolvendo as organizações da comunidade, as entidades de saúde e os decisores políticos.

HN – Para além da resistência aos medicamentos, que outros desafios emergentes, como o impacto de pandemias paralelas ou questões de saúde mental, é que o IHMT identifica como críticos para o futuro do controlo do VIH/SIDA?

AA – Atualmente, o controlo da doença é extremamente eficaz através dos medicamentos existentes, sobretudo nos países de alto rendimento, em que há mais acesso a um seguimento da doença eficaz. Isto significa que os indivíduos que vivem com VIH têm uma esperança de vida semelhante à do resto da população. Nessa perspetiva, o envelhecimento das pessoas que vivem com VIH tem sido muito discutido e alvo de estudos recentes. Por outro lado, considero que é muito importante perceber o impacto que os cortes de financiamento da USAID, em países africanos em que a prevalência da infeção é muito elevada, terá para o controlo da pandemia. Estes cortes de financiamento já estão a ter um impacto importante no funcionamento das unidades sanitárias em Moçambique, por exemplo, em que a prevalência da infeção chega a atingir 20% em algumas regiões. Se o acesso à terapêutica for limitado devido a estas medidas, poderemos vir a ter problemas sérios nos próximos anos e um comprometimento inevitável das metas estabelecidas para 2030.

HN – Tendo em conta a posição geográfica e as ligações históricas de Portugal, que papel pode o país e a sua comunidade científica, através de instituições como o IHMT NOVA, desempenhar na resposta global ao VIH, particularmente no espaço da CPLP?

AA – O IHMT NOVA tem estado presente em diversas iniciativas relacionadas com a resposta ao VIH em países da CPLP, algumas na perspetiva de cooperação, outras na perspetiva de investigação, e outras de ensino e capacitação. Trabalhamos todos os dias com os países da CPLP para melhorar os indicadores de saúde destes países, através de todo o trabalho que realizamos em medicina tropical e saúde global. Direta ou indiretamente, toda a atuação do IHMT NOVA contribui para a resposta global ao VIH. Esta resposta implica ações múltiplas, que vão desde a promoção da literacia em saúde, ao tratamento da infeção, vigilância epidemiológica ou desenvolvimento de políticas de saúde. Nesse sentido, diversos atores da comunidade científica podem contribuir para esta resposta, mesmo que não sejam tão especializados nesta área. Por outro lado, dentro da CPLP , a língua portuguesa une-nos e devemos por isso usá-la para contribuir para essa resposta.

Entrevista MMM

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