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Moçambique registou progressos consideráveis no combate ao VIH/Sida, uma batalha que, mesmo assim, teima em figurar entre os principais desafios nacionais de saúde. Quem o admitiu foi a própria chefe do governo, Benvinda Levi, durante as cerimónias do Dia Mundial de Luta contra a Sida, na capital. A governante não se ficou pelas conquistas, esboçando um retrato onde se misturam dados encorajadores e obstáculos persistentes.
“Ao longo dos últimos anos, o nosso país registou avanços significativos”, afirmou Levi, perante uma plateia de autoridades e ativistas. Mas a sua voz pareceu ganhar um tom mais contido ao acrescentar: “Contudo, esta epidemia continua a ser um dos maiores desafios de saúde pública que o nosso país enfrenta”. Esse dualismo marcou o discurso oficial.
Entre as conquistas, a primeira-ministra enumerou o reforço das abordagens comunitárias, um acesso mais protegido ao Tratamento Antirretroviral (TARV) – com esquemas de dispensa trimestral e semestral que procuram facilitar a vida aos doentes – e um esforço ampliado de testagem. Medidas que, garante, se traduziram em números concretos: “87% das pessoas vivendo com HIV conhecem o seu estado serológico, 95% das pessoas que conhecem o seu estado estão em tratamento antirretroviral e 91% das pessoas em tratamento estão com carga viral suprimida”, detalhou, referindo-se a dados de setembro passado.
Estes resultados, sustentou, refletem o impacto do investimento governamental em áreas como a descentralização dos serviços e a aposta no envolvimento das comunidades. No entanto, Levi não escondeu os problemas que perduram. A cobertura de testagem continua insuficiente em províncias com maior incidência, um senão que compromete a meta de travar a doença como ameaça de saúde pública até 2030. O apelo ao engajamento de todos soou, por isso, mais como um reconhecimento tácito de que o caminho ainda é longo.
O peso da epidemia, lembrou a governante, continua a cair com mais força sobre as chamadas “populações-chave”, um eufemismo que esconde rostos muitas vezes marginalizados. A somar aos fatores estruturais de sempre – desigualdades, violência de género, pobreza –, o sistema de saúde moçambicano tem sido fustigado por uma sucessão de crises externas. A pandemia de covid-19 atrapalhou tudo, desde a procura por serviços básicos até às campanhas de prevenção, sem falar nas cadeias de suprimentos. Os eventos climáticos extremos, tão frequentes nos últimos tempos, também deram a sua contribuição negativa, complicando a logística e a assistência.
Em paralelo com o discurso oficial, circulam números que ajudam a dimensionar a tragédia e a resposta. Dados do Gabinete Parlamentar de Prevenção e Combate ao VIH/Sida, apresentados na Assembleia da República, indicam que pelo menos 116.043 pessoas iniciaram tratamento no primeiro semestre deste ano, incluindo 5.830 crianças. A cobertura geral do TARV atingiu os 82% em junho, abrangendo mais de dois milhões de moçambicanos. São números que impressionam, mas que não apagam uma realidade cruel: Moçambique mantém-se como o terceiro país do mundo com maior número de pessoas a viver com o vírus, e o segundo em novas infeções.
A prevalência situa-se nos 12,5% entre adultos com mais de 15 anos, com uma discrepância gritante entre mulheres (15%) e homens (9,5%). Estima-se que entre 2,3 e 2,6 milhões de pessoas vivam com VIH no país, um universo que inclui 125.000 a 170.000 crianças. Em 2024, o número de mortes relacionadas com a sida terá estagnado nas 44.000, um patamar altíssimo, ainda que as novas infeções (92.000) tenham caído para quase metade do valor registado há 15 anos. São estatísticas que, num qualquer relatório, parecem frias. Mas na vida real, em Maputo ou em Nampula, traduzem-se em histórias de luta diária, um combate que Benvinda Levi hoje insistiu em não dar por ganho.
NR/HN/Lusa



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