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O anúncio formal coube ao ministro da Saúde Pública, Samuel Roger Camba, que em Kinshasa invocou indicadores científicos para afirmar que a cadeia de transmissão foi efetivamente cortada. “Em nome do Governo — e tendo em conta todos os indicadores científicos e operacionais que confirmam que a cadeia de transmissão do vírus foi interrompida — declaro oficialmente o fim do 16.º surto de Ébola na República Democrática do Congo”, disse, pondo um ponto final a três meses de esforços concentrados numa área rural de acessibilidade complicada.
A resposta, montada a uma velocidade considerável, juntou esforços nacionais e internacionais. Mais de uma centena de especialistas da Organização Mundial da Saúde e outros profissionais foram mobilizados para o terreno, uma logística que envolveu ainda o envio de mais de 150 toneladas de materiais médicos essenciais. O balanço final fixa-se em 64 casos, sendo 53 confirmados laboratorialmente e 11 considerados prováveis, e 45 mortes. São números que, contudo, poderiam ter sido muito piores dada a natureza insidiosa do vírus e as fragilidades do local.
Mohamed Janabi, que dirige o escritório regional da OMS para África, não escondeu um certo alívio ao comentar a operação. “Controlar e terminar este surto de Ébola em três meses é um feito notável”, admitiu, sublinhando a ação conjunta das autoridades, dos parceiros e, não menos importante, das próprias comunidades afetadas. A sua declaração seguiu uma linha optimista, focada no legado deixado para lá da emergência. “A OMS orgulha-se de ter apoiado a resposta e de ter deixado para trás sistemas mais robustos, desde a água potável a cuidados mais seguros, que protegerão as comunidades muito depois do fim do surto”, acrescentou Janabi, num tom que misturava avaliação técnica com uma ponta de emoção.
Para a RDCongo, este episódio representa o 16.º capítulo de um longo combate que começou em 1976, quando o vírus foi identificado pela primeira vez precisamente no seu território. A província de Kasai, por seu turno, já tinha sido palco de surtos em 2007 e 2008, o que sugere uma certa endemicidade da região para a doença. O Ébola, como se sabe, alastra através do contacto direto com fluidos corporais de pessoas infectadas, vivas ou mortas, e com superfícies por elas contaminadas, sendo uma patologia com uma taxa de letalidade historicamente elevada.
Com a página agora virada, o foco das autoridades sanitárias desloca-se. Já não se trata de perseguir um único inimigo, mas de manter uma vigilância integrada, capaz de detetar qualquer ameaça de forma precoce. A OMS assegura que continuará a trabalhar de perto com Kinshasa e com as autoridades provinciais para sustentar a preparação do país. A sombra do vírus, sempre presente na vastidão da bacia do Congo, exige que a trégua não se confunda com baixa guarda.
NR/HN/Lusa



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