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O governo espanhol ativou a Unidade Militar de Emergências, destacando 117 efetivos e 25 viaturas para o parque natural de Collserola, nos arredores de Barcelona. Estes juntam-se a um contingente que já rondava os trezentos elementos, provenientes dos Mossos d’Esquadra, Proteção Civil e vigilantes florestais, num esforço conjunto para cercar o vírus. O trabalho no terreno, descrito como meticuloso e abrangente, inclui a captura de animais, a desinfeção de áreas e o controlo rigoroso de acessos.
A explicação para o aparecimento do vírus, que não era registado em território espanhol desde os anos 90, soa quase banal perante a gravidade das consequências. Òscar Ordeig, conselheiro regional da Agricultura, não escondeu que a pista mais sólida conduz a um descuido humano. “A possibilidade de que o vírus venha do abandono de um enchido contaminado numa sandes é muito alta”, afirmou, detalhando que a zona de deteção é frequentada por camiões e possui áreas de serviço onde esse cenário seria plausível. A imagem de um javali a consumir os restos de uma refeição abandonada torna-se o episódio inicial de uma crise com ramificações internacionais.
O impacto económico paira como uma névoa espessa sobre todo o incidente. A Espanha posiciona-se como o principal produtor de suínos da União Europeia, com um volume de exportações que atinge os 8.800 milhões de euros anuais. A notícia do foco, ainda que circunscrito a animais selvagens numa área delimitada, fez soar alarmes imediatos junto dos parceiros comerciais. Cerca de quarenta países, entre os quais se conta a China — um destino crucial —, impuseram de imediato restrições à importação de carne suína. Pequim, contudo, limitou o embargo aos produtos provenientes da província de Barcelona, num sinal de que acredita no carácter localizado do surto.
Do lado do governo central, o ministro da Agricultura, Luis Planas, emitiu uma mensagem de serenidade dirigida ao mercado interno. “Apelo à tranquilidade dos consumidores”, disse, garantindo que a segurança alimentar está preservada e que nenhuma exploração pecuária registou, até ao momento, casos da doença. A confiança nas estruturas de vigilância sanitária da UE foi reiterada, ainda que com o reconhecimento tácito de que o perigo pode vir de fora das fronteiras comunitárias.
Enquanto técnicos do ministério e da Comissão Europeia se deslocam para o local, as operações de campo intensificam-se. Um perímetro de vários quilómetros em redor dos pontos onde os dois javalis infetados foram encontrados permanece interdito. Quarenta animais já foram examinados e há oito casos suspeitos sob análise laboratorial. A PSA, inofensiva para os humanos mas devastadora para suínos e javalis, exige este esforço de contenção. A sua capacidade de se fazer transportar em veículos, calçado ou equipamentos torna qualquer relaxamento das medidas um risco calculado, mas inaceitável.
O eco do alerta fez-se sentir além dos Pirenéus. Em Portugal, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária emitiu um apelo para o reforço das medidas de biossegurança nas explorações nacionais. A mensagem, de caráter preventivo, insistiu na proibição de alimentar animais com restos, na desinfeção rigorosa e na necessidade imperiosa de não deixar resíduos alimentares acessíveis à fauna selvagem. É um lembrete de que, num espaço europeu sem fronteiras para muitas coisas, os vírus viajam com uma facilidade desconcertante, por vezes à boleia de um simples descuido.
NR/HN/Lusa



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