Vagas por preencher demonstram “crise estrutural” de especialidades essenciais ao SNS

1 de Dezembro 2025

A Ordem dos Médicos (OM) alertou hoje que os 20% de vagas que ficaram por preencher no concurso do internato demonstram a “crise estrutural” que se verifica em especialidades essenciais para o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Em comunicado, a Ordem aponta os exemplos da medicina geral e familiar (médicos de família), da medicina interna e da medicina intensiva para salientar que os dados do concurso que terminou no sábado “revelam um agravamento de vagas não preenchidas em especialidades essenciais” no serviço público.

“É evidente que o SNS enfrenta uma crise de recrutamento nas especialidades essenciais e que se agrava ano após ano. As regiões de Lisboa e Vale do Tejo e Norte são as mais afetadas”, salienta.

Em causa estava um total de 2.331 vagas iniciais disponibilizadas para as várias especialidades a ocupar nas unidades do SNS que vão receber os novos médicos, que iniciam a sua formação especializada a partir de 01 de janeiro de 2026.

Estavam em condições de escolher uma especialidade 2.375 médicos que terminaram a sua formação geral.

De acordo com a análise feita pela OM, a medicina geral e familiar, que assegura os cuidados primários prestados à população nos centros de saúde, encabeça a lista de especialidades com mais vagas vazias, 229, um terço do total de lugares disponibilizados no concurso deste ano.

Quanto à medicina interna, que a Ordem considera ser um “pilar fundamental dos hospitais”, apenas 52% das 204 vagas disponíveis ficaram ocupadas, refere a mesma nota informativa.

“Verificou-se ainda um desinteresse assinalável pela medicina intensiva”, especialidade médica dedicada ao tratamento de doentes em estado crítico que necessitam de monitorização e suporte avançado de vida, lamenta a OM, avançando que 59 das 74 vagas foram preenchidas.

Já na saúde pública, dos 60 lugares disponíveis, 23 ficaram vazios, adianta ainda a organização liderada por Carlos Cortes, concluindo que, no total o concurso de internato médico de 2025, foram disponibilizadas 2.331 vagas, tendo sido preenchidas 1.862, ou seja, 20% ficaram desocupadas.

Para Carlos Cortes, desvalorizar a medicina geral e familiar “fragiliza todos os níveis assistenciais e coloca em crise faixas territoriais e segmentos da sociedade necessitados de cuidados de saúde próximos, eficazes e proativos”.

Os dados do portal da transparência do SNS indicam que, em outubro deste ano, 1.542.989 utentes não tinham médico de família atribuído.

Carlos Cortes questiona ainda “qual a razão para o Ministério da Saúde ainda não ter implementado” o pacote de 25 propostas apresentadas pela OM e que visam melhorar as condições de trabalho, carreira, formação e remuneração, com o objetivo de reter profissionais no país e atrair os que estão no estrangeiro.

O presidente do Conselho Nacional do Médico Interno da Ordem considera que os resultados do concurso “reforçam o cartão vermelho que os jovens médicos dão à atratividade do internato médico” no SNS.

Além disso, “demonstram a urgência de medidas de flexibilização dos percursos formativos, incentivos dirigidos a especialidades e regiões menos atrativas, assim como a necessidade de uma melhoria transversal das condições de trabalho”, defende José Durão.

Depois de muitos anos a ser organizado pelas administrações regionais de saúde, entretanto extintas, a ACSS voltou a receber o processo de escolhas de vagas para a formação especializada, que decorreu até sábado.

Este ano, o processo de seleção das vagas para a formação especializada dos médicos decorreu através de uma nova plataforma informática, desenvolvida no âmbito do projeto de desmaterialização do internato médico.

lusa/HN

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