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A cidade de Saint-Amand-Montrond, no centro de França, está disposta a pagar para ouvir chorar bebés dentro dos seus limites. Perante uma natalidade em queda persistente, o município propõe um incentivo de mil euros, sob a forma de um cheque presente, a cada mulher que der à luz na sua maternidade. A iniciativa, porém, não está a ser recebida com aplausos por parte de quem trabalha no sector.
Os números explicam a ansiedade local. O último relatório do INSEE traça um retrato sombrio: em 2023, nasceram em França apenas 660.800 crianças, o valor mais baixo desde o final da Segunda Guerra Mundial. Saint-Amand-Montrond, com a sua área urbana a albergar cerca de 19.000 almas, vê o seu próprio futuro a esmorecer. As previsões apontam para apenas 226 partos em 2025, um número que fica aquém do mínimo legal de 300, limite a partir do qual o Estado francês pondera o fecho das unidades. O presidente da câmara, Emmanuel Riotte, dos Republicanos, acredita que a quantia pode ser um chamariz. A ideia é reconquistar as grávidas da região que, atualmente, optam por deslocar-se a hospitais maiores em cidades como Bourges.
Contudo, a medida, que à primeira vista parece um simples estímulo económico, toca numa ferida profunda do sistema de saúde francês. Quatro sindicatos médicos — o Snphare, o Syngof, o Snpeh e o Samu Urgences de France — juntaram-se para condenar publicamente a proposta. A sua oposição não é um capricho. No cerne da questão está uma convicção firme: a escolha de um local para nascer não deve ser guiada por um prémio. “Quando uma maternidade está em risco de fechar, não é por razões económicas, mas sim por razões de segurança”, sustentam.
O argumento é técnico e prende-se com a chamada massa crítica. Para estes profissionais, uma unidade com tão poucos partos anuais vê-se impossibilitada de manter as equipas com a experiência necessária para lidar com complicações graves e súbitas, que exigem intervenção multidisciplinar em minutos. A baixa atividade, defendem, compromete a segurança. A solução que advogam passa por transformar pequenas estruturas como a de Saint-Amand em centros de vigilância pré e pós-natal, centralizando os partos efetivos em unidades maiores e mais equipadas.
Saint-Amand não é um caso isolado. É uma entre cerca de vinte maternidades francesas a não cumprir o patamar dos 300 partos. Um relatório do Tribunal de Contas de 2024 veio reforçar as preocupações dos sindicatos, sublinhando que as unidades com menos de mil partos anuais enfrentam dificuldades “crescentes” em reter profissionais qualificados. O debate, assim, ultrapassa em muito os mil euros do cheque presente. Coloca no centro a complexa equação entre a preservação de um serviço público de proximidade e as exigências, por vezes brutais, da segurança clínica. Enquanto a autarquia tenta salvar um serviço com um estímulo material, os médicos lembram que algumas coisas, na hora de nascer, não têm preço.
NR/HN/Lusa



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