A frágil vitória da longevidade portuguesa: mais anos de vida, mas um sistema de saúde à beira do precipício

3 de Dezembro 2025

O relatório "Pensions at a Glance 2025" da OCDE elenca os ganhos na esperança de vida, mas essa conquista portuguesa esconde uma crise silenciosa na capacidade de resposta do sistema de saúde a uma população cada vez mais idosa e dependente

O relatório “Pensions at a Glance 2025” da OCDE descreve, com a frieza habitual dos documentos internacionais, uma tendência global: o ritmo de aumento da esperança de vida abrandou. Para Portugal, isso poderia soar como um alívio para as contas da Segurança Social. Menos anos a pagar pensão, certo? A equação, porém, é terrivelmente mais complexa e desemboca num dilema que os números da OCDE apenas insinuam. O nosso país tem uma das esperanças de vida mais elevadas da Europa, um feito notável. No entanto, essa longevidade recorde é, hoje, um dos maiores testes de stress à solidez do Serviço Nacional de Saúde. Enquanto países como a Itália ou a Espanha, com pirâmides etárias semelhantes, enfrentam pressões, a tempestade perfeita em Portugal combina envelhecimento acelerado, uma força de trabalho em saúde a definhar e uma crónica falta de investimento.

Há uma espécie de miragem nos dados. Vivemos mais, sim. Mas como? A conversa nos corredores dos hospitais e nos centros de saúde é outra. Fala-se de listas de espera intermináveis para consultas de especialidade, de idosos que desistem de tratar problemas de visão ou audição porque a espera é longa, de doentes oncológicos cujo tempo precioso se esvai em trâmites burocráticos. Um sistema desenhado para patologias agudas vê-se agora asfixiado pela gestão de doenças crónicas – diabetes, insuficiência cardíaca, problemas respiratórios – que caracterizam uma população idosa. A comparação com um país como a Finlândia, também envelhecido, é dolorosa. Lá, uma aposta decisiva e precoce na digitalização e nos cuidados primários criou uma rede capaz de gerir a cronicidade com mais eficácia. Em Portugal, o centro de saúde ideal, que funcionaria como quartel-general da saúde do idoso, está muitas vezes às moscas, sem médicos de família para milhares de utentes.

O paradoxo é cruel: precisamos de mais profissionais de saúde precisamente quando temos menos jovens para os formar e quando os que formamos emigram em busca de melhores condições. Enquanto na Alemanha se recrutam ativamente enfermeiros portugueses, nos nossos hospitais as equipas trabalham até à exaustão. Esta sangria não é apenas um problema laboral; é uma ameaça clínica. A fadiga da equipa aumenta o risco de erro. O pior é que esta crise não é um acidente, mas o resultado previsível de anos de más opções. Olhar para a Grécia, um país que viu o seu sistema de saúde ser desmontado pela austeridade, deveria servir-nos de alerta máximo. A degradação, quando começa, é difícil de travar.

O relatório da OCDE, ao focar-se na sustentabilidade financeira das pensões, toca num ponto crucial mas lateral: a saúde da população determina em boa parte a sua capacidade de trabalhar até mais tarde, como muitos defendem. De que serve aumentar a idade da reforma se, aos 63 anos, um trabalhador está tão desgastado física e mentalmente que não consegue manter o ritmo? A discussão em Portugal tem sido excessivamente economicista, centrada nos números da despesa, e pouco atenta à qualidade de vida que sustenta (ou não) esses anos extra. A verdadeira sustentabilidade não está apenas nas contas do Estado, mas na solidez dos corpos e das mentes dos portugueses. E aí, os indicadores são menos brilhantes do que a esperança de vida aos 65 anos faz crer. Estamos a ganhar anos de vida, mas corremos o risco de perder a qualidade desses anos, e de ver o sistema que deveria sustentá-los a desfalecer. É uma vitória que pode saber a derrota.

NR/HN/OCDE

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Portugal, no documento “O Estado da Saúde Cardiovascular na União Europeia”: Baixa Mortalidade, mas Fatores de Risco Persistem

O relatório da OCDE “O Estado da Saúde Cardiovascular na UE”, tornado público hoje, analisa os padrões da doença na Europa. Portugal surge com uma mortalidade por doenças circulatórias das mais baixas do continente, um sucesso que se manteve mesmo durante a pandemia. No entanto, o país ainda enfrenta desafios significativos, como a gestão da diabetes, o consumo de álcool e a mortalidade prematura, especialmente entre os homens

Doenças cardiovasculares custam 282 mil milhões de euros à União Europeia

A União Europeia enfrenta um desafio significativo com as doenças cardiovasculares (DCV), que continuam a ser a principal causa de morte e incapacidade no território comunitário. Um relatório recentemente divulgado, antecedendo o lançamento do Plano Corações Seguros, revela que estas doenças são responsáveis por um terço de todas as mortes anuais na UE e afetam mais de 60 milhões de pessoas.

Universidade Católica Portuguesa lança curso pioneiro em Medicina do Sono Pediátrico

A Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (FM-UCP) vai iniciar a primeira edição de um curso avançado dedicado ao estudo e prática clínica do sono na infância, uma formação pioneira em Portugal. O curso, que arranca a 16 de janeiro, será ministrado em formato b-learning e em inglês, com um carácter internacional.

Ordem dos Nutricionistas cria Fundo de Apoio à Formação para profissionais desempregados

A Ordem dos Nutricionistas lançou, pela primeira vez, um Fundo de Apoio à Formação destinado a apoiar os profissionais de nutrição que se encontrem em situação de desemprego. Esta iniciativa surge no âmbito do Dia do Nutricionista, celebrado a 14 de dezembro, e tem como objetivo possibilitar a aquisição de ferramentas que promovam uma prática profissional atualizada e baseada na evidência científica.

Doação de gâmetas: um gesto cada vez mais essencial para ajudar a construir famílias

A doação de gâmetas — óvulos e espermatozoides — assume hoje um papel crucial na concretização do sonho da parentalidade para centenas de pessoas em Portugal. As mudanças sociais, o adiamento da maternidade e paternidade e o aumento dos casos de infertilidade tornam este gesto altruísta cada vez mais necessário.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights