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O relatório “Pensions at a Glance 2025” da OCDE descreve, com a frieza habitual dos documentos internacionais, uma tendência global: o ritmo de aumento da esperança de vida abrandou. Para Portugal, isso poderia soar como um alívio para as contas da Segurança Social. Menos anos a pagar pensão, certo? A equação, porém, é terrivelmente mais complexa e desemboca num dilema que os números da OCDE apenas insinuam. O nosso país tem uma das esperanças de vida mais elevadas da Europa, um feito notável. No entanto, essa longevidade recorde é, hoje, um dos maiores testes de stress à solidez do Serviço Nacional de Saúde. Enquanto países como a Itália ou a Espanha, com pirâmides etárias semelhantes, enfrentam pressões, a tempestade perfeita em Portugal combina envelhecimento acelerado, uma força de trabalho em saúde a definhar e uma crónica falta de investimento.
Há uma espécie de miragem nos dados. Vivemos mais, sim. Mas como? A conversa nos corredores dos hospitais e nos centros de saúde é outra. Fala-se de listas de espera intermináveis para consultas de especialidade, de idosos que desistem de tratar problemas de visão ou audição porque a espera é longa, de doentes oncológicos cujo tempo precioso se esvai em trâmites burocráticos. Um sistema desenhado para patologias agudas vê-se agora asfixiado pela gestão de doenças crónicas – diabetes, insuficiência cardíaca, problemas respiratórios – que caracterizam uma população idosa. A comparação com um país como a Finlândia, também envelhecido, é dolorosa. Lá, uma aposta decisiva e precoce na digitalização e nos cuidados primários criou uma rede capaz de gerir a cronicidade com mais eficácia. Em Portugal, o centro de saúde ideal, que funcionaria como quartel-general da saúde do idoso, está muitas vezes às moscas, sem médicos de família para milhares de utentes.
O paradoxo é cruel: precisamos de mais profissionais de saúde precisamente quando temos menos jovens para os formar e quando os que formamos emigram em busca de melhores condições. Enquanto na Alemanha se recrutam ativamente enfermeiros portugueses, nos nossos hospitais as equipas trabalham até à exaustão. Esta sangria não é apenas um problema laboral; é uma ameaça clínica. A fadiga da equipa aumenta o risco de erro. O pior é que esta crise não é um acidente, mas o resultado previsível de anos de más opções. Olhar para a Grécia, um país que viu o seu sistema de saúde ser desmontado pela austeridade, deveria servir-nos de alerta máximo. A degradação, quando começa, é difícil de travar.
O relatório da OCDE, ao focar-se na sustentabilidade financeira das pensões, toca num ponto crucial mas lateral: a saúde da população determina em boa parte a sua capacidade de trabalhar até mais tarde, como muitos defendem. De que serve aumentar a idade da reforma se, aos 63 anos, um trabalhador está tão desgastado física e mentalmente que não consegue manter o ritmo? A discussão em Portugal tem sido excessivamente economicista, centrada nos números da despesa, e pouco atenta à qualidade de vida que sustenta (ou não) esses anos extra. A verdadeira sustentabilidade não está apenas nas contas do Estado, mas na solidez dos corpos e das mentes dos portugueses. E aí, os indicadores são menos brilhantes do que a esperança de vida aos 65 anos faz crer. Estamos a ganhar anos de vida, mas corremos o risco de perder a qualidade desses anos, e de ver o sistema que deveria sustentá-los a desfalecer. É uma vitória que pode saber a derrota.
NR/HN/OCDE



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