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O aumento acentuado de casos de paludismo no arquipélago está a gerar uma discussão pública entre as autoridades de saúde sobre a gravidade da situação. Em vésperas de um seminário nacional sobre a matéria, a directora interina do Programa Nacional de Luta Contra o Paludismo (PNLP), Felícia Sousa, não teve papas na língua ao classificar os números de 2025. “O número de casos está muito acima do limiar, desde o início do ano”, afirmou, sustentando que os 4.289 casos registados até agora se “equiparam a epidemia”. Felícia Sousa traçou um panorama dos últimos cinco anos, que totalizam 20.493 infecções, com um pico preocupante de 7.118 casos em 2024. Apesar do cenário, frisou que “não se registou casos de óbitos por paludismo”.
As declarações foram proferidas num encontro de dois dias que juntou, raramente, as mais altas figuras do Estado – o Presidente da República, Carlos Vila Nova, a presidente do parlamento, Celmira Sacramento, e o primeiro-ministro, Américo Ramos – com profissionais de saúde e parceiros. O evento, ironicamente, foi uma iniciativa do próprio ministro da Saúde, Celso Matos, que parece ter visto chegar a debate de uma forma mais crua do que talvez esperasse.
Em resposta direta aos jornalistas, e particularmente à Lusa, o ministro, ele próprio médico e ex-bastonário da Ordem, adoptou um tom mais circunspecto. Reconheceu, sem hesitar, o aumento. Mas a palavra “epidemia” parece custar-lhe. “Tenho dificuldade em caracterizar a situação como epidemia”, confessou, argumentando que o país vive “numa zona de endemia de paludismo há muito tempo”. Para Celso Matos, o que se passou “nos últimos dois anos” estava dentro do esperado, daí a realização do seminário como chamada de atenção. Afastou com veemência qualquer ideia de ocultação: “Não temos a mínima intenção de ocultar dados”, garantiu, dizendo que foi por sua iniciativa que os números foram apresentados de forma clara, “sem passar a ideia que está tudo bem”.
Questionado sobre a possibilidade de o Governo vir a declarar oficialmente uma epidemia, o ministro desviou a decisão para o campo técnico. “Esta é uma matéria de epidemiologistas, que são especialistas e deverão dizer se se deve declarar epidemia ou não”, afirmou. O seu foco, insistiu, está noutro ponto: “Nós estamos num momento de pico de paludismo que precisa de uma intervenção, de um reajuste”. Na sua intervenção formal no seminário, Matos foi mais contundente ao admitir que a doença “continua a ser um grave problema de saúde pública”, com repercussões no desenvolvimento socioeconómico, e que a tendência de aumento “compromete a meta da eliminação”. Prometeu reforçar a vigilância, o diagnóstico precoce e a gestão ambiental.
Carlos Vila Nova, ao abrir os trabalhos, lançou um apelo que soou quase como um repto à concertação nacional. Disse que a saúde deve ser uma “verdadeira causa nacional” e que o paludismo, a Sida e a tuberculose são fontes de “sofrimento, pobreza e subdesenvolvimento”. Defendeu, numa visão mais ampla, que a responsabilidade não pode cair apenas no Ministério da Saúde, mas ser partilhada por todos os sectores, exigindo “ação coordenada e investimento contínuo”. Um discurso que contrasta com a divergência técnica agora exposta sobre como classificar a crise que todos reconhecem existir.
NR/HN/Lusa



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