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A resposta à mpox no norte de Moçambique registou um avanço substancial com a conclusão de uma campanha de imunização intensiva. No epicentro do surto, a província do Niassa, conseguiu-se administrar vacinas a 22.022 indivíduos em apenas cinco dias, um esforço que as autoridades de saúde locais não escondem classificar como positivo. A informação foi confirmada pelo médico-chefe provincial, Amândio Viola, numa conversa com a Lusa.
A meta traçada era ligeiramente mais ambiciosa, fixada em 22.796 pessoas, mas o balanço é de satisfação pelo alcance obtido. “Tínhamos uma meta de 22.796 do grupo-alvo que nós pretendíamos alcançar. Nós fazemos um balanço positivo porque conseguimos alcançar uma meta de 22.022 pacientes vacinados”, explicou Viola, traçando um retrato objetivo da operação. A campanha decorreu de 27 de novembro a 1 de dezembro, abrangendo sete dos dezasseis distritos da província: Lago, Marrupa, Cuamba, Lichinga, Majune, Maúa e Metarica. A escolha não foi aleatória; todos estes territórios tinham pelo menos uma infeção confirmada pela doença.
Para esta ofensiva foram mobilizadas 23.500 doses da vacina Imvanex. A estratégia de distribuição privilegiou um leque específico de populações, numa tentativa clara de criar um cordão sanitário em torno dos focos de infeção. Receberam a imunização os contactos conhecidos de casos positivos, garimpeiros — um grupo particularmente afetado no início do surto —, guardas de fronteira, funcionários da migração e os chamados “grupos de frente”. Nesta última designação incluem-se profissionais de saúde e os colaboradores comunitários, que estão na linha da frente da vigilância epidemiológica.
O perfil dos primeiros doentes ditou, em grande medida, esta abordagem. “O surto, quando começou, estava focalizado no distrito de Lago, concretamente no posto administrativo de Lupulichi, onde fomos ver que a grande parte dos pacientes que nós tínhamos eram garimpeiros e mulheres trabalhadoras de sexo”, recordou o médico-chefe. “[Além destes] incluímos também [na vacinação] aqueles que nós achámos que pela natureza do serviço têm maior probabilidade de entrar em contacto com casos de mpox”, justificou.
Este movimento massivo de vacinação surge num momento em que a situação epidemiológica no Niassa parece mostrar sinais de contenção. Segundo Amândio Viola, a província não regista casos suspeitos e ativos há mais de quinze dias. Um alívio, sem dúvida, depois de um acumulado de 660 suspeitos desde julho, dos quais 80 deram positivo para o vírus. “Desses 80 casos, importa referir que 64 casos só foram confirmados para o distrito de Lago”, especificou Viola, sublinhando que o objetivo primordial da vacinação é “cortar a cadeia de transmissão” de uma vez por todas.
No entanto, ninguém se está a precipitar a declarar vitória. Viola adiantou que, para além da vigilância que se mantém, as campanhas de sensibilização vão continuar. A atenção está especialmente voltada para as regiões próximas das fronteiras com países vizinhos que também reportam casos da doença.
A nível nacional, os números mais recentes, atualizados até segunda-feira e consultados pela Lusa, indicam um acumulado de 91 casos desde julho. Desses, 90 estão já recuperados. Para além do Niassa, que concentra a esmagadora maioria das infeções (80), foram assinalados casos em Maputo (4), Tete (3), Manica (3) e Cabo Delgado (1). O país testou 1.855 amostras, de um total de 1.857 suspeitos registados, e mantém-se sem registo de qualquer óbito atribuído à doença. Nas últimas 24 horas, o boletim do Ministério da Saúde refere que não houve novos casos suspeitos e que nenhuma amostra foi processada.
Apesar da elevada taxa de recuperação, as autoridades sanitárias nacionais mantêm a prudência. A declaração do fim do surto está condicionada a um período de sessenta dias sem um único caso positivo. “Tendo em conta que na província de Niassa ainda estamos a ter casos positivos, não podemos neste momento declarar o fim do surto de mpox no país”, afirmou em outubro a diretora nacional adjunta de Saúde Pública, Aleny Couto, num contexto que, felizmente, parece estar a evoluir no sentido certo. As autoridades garantem que o país está preparado para lidar com a doença, com capacidade de testagem local em todas as capitais provinciais.
O primeiro caso de mpox em Moçambique remonta a outubro de 2022, na cidade de Maputo, durante o surto anterior. A doença, de origem zoonótica e identificada pela primeira vez em 1970 na República Democrática do Congo, continua a ser uma preocupação de saúde pública na região austral de África. Dados globais apontam para mais de 77 mil casos notificados este ano em 22 países, com 501 mortes associadas.
NR/HN/Lusa



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