Chade à beira do colapso com chegada massiva de refugiados sudaneses

3 de Dezembro 2025

A pressão sobre o Chade atinge um limiar crítico. Com o consumo de água a metade do mínimo vital e um médico para 52 mil pessoas, a resposta à chegada de 1,2 milhões de refugiados do Sudão esbarra num financiamento drasticamente insuficiente

O fluxo, intenso e ininterrupto, não dá tréguas. Desde que o conflito no Sudão escalou em 2023, mais de 1,2 milhões de pessoas atravessaram a fronteira em direção ao leste do Chade, um movimento que transformou a região num dos maiores pontos de acolhimento de refugiados em África. A realidade no terreno, segundo a Fundação Portugal com ACNUR, adquire contornos de uma pressão extrema sobre recursos já de si escassos. “Atualmente, podemos verificar que 1 em cada 3 habitantes na região leste do Chade é refugiado”, confirma Joana Feliciano, Responsável de Comunicação e Relações Externas da Fundação. O agravamento dos combates em torno de El Fasher, diz, continua a empurrar diariamente pessoas para fora do país, incluindo dos campos de deslocados de Zamzam e Abu Shouk.

Para quem chega, o panorama é desolador. Os números falam por si, ainda que a custo: existe apenas um médico para cada 52 mil refugiados, uma proporção que sufoca qualquer possibilidade de assistência adequada. Na educação, a situação não é mais animadora, com apenas duas em cada dez crianças refugiadas a conseguirem acesso a uma sala de aula. Um dos dramas mais prementes, contudo, revolve em torno da água. O consumo diário garantido está fixado em 10 litros por pessoa, um valor que fica aquém de metade do mínimo humanitário recomendado de 20 litros. Uma restrição que condiciona tudo, da higiene à própria sobrevivência.

A nova vaga esmagadora sobrepôs-se a uma realidade já profundamente marcada pela mobilidade forçada. O Chade já acolhia cerca de 400 mil refugiados sudaneses de conflitos anteriores, além de populações deslocadas da República Centro-Africana e dos Camarões. Com a nova crise, o número total de refugiados e deslocados no país ultrapassou os 2 milhões, triplicando em apenas dois anos. Estima-se que 87% dos recém-chegados do Sudão sejam mulheres e crianças, muitas com relatos de violações graves de direitos humanos durante a fuga.

A resposta, apesar dos esforços, debate-se com uma crónica falta de meios. O ACNUR, a trabalhar em coordenação com as autoridades chadianas e mais de 40 parceiros, conseguiu realojar meio milhão de pessoas em assentamentos mais seguros, abrindo oito novos e expandindo onze. No entanto, centenas de milhares permanecem em zonas fronteiriças improvisadas, sem abrigo digno ou condições básicas. O surgimento de surtos de cólera nas áreas superlotadas aumenta o risco de uma catástrofe sanitária de grandes proporções. “O Chade é hoje um dos países mais sobrecarregados do mundo”, sublinha a Portugal com ACNUR, num apelo que soa a urgência. Os dados financeiros ilustram o abismo: apenas 30% das necessidades humanitárias para 2025 estão cobertas.

Foi neste contexto de carência extrema que a Fundação lançou a campanha “O presente que pode mudar milhões de vidas no Chade – 1 presente, 2 milhões de futuros”. A ideia, explica Joana Feliciano, é canalizar a solidariedade para gestos concretos. “Com um gesto simples, é possível garantir o essencial a quem perdeu tudo”, afirma, referindo-se à transformação de donativos em refeições, kits de dignidade, água ou abrigo. Um esforço para travar uma deterioração que, sem um impulso internacional decisivo, parece destinada a aprofundar-se.

Mais informações sobre a campanha podem ser consultadas através da Fundação Portugal com ACNUR.

PR/HN

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