Crise no internato médico deixa vagas por preencher e expõe fratura no SNS

3 de Dezembro 2025

A falta de candidatos para vagas no concurso de internato deste ano, a pior dos últimos tempos, levanta questões sobre a capacidade do SNS em reter jovens médicos e assegurar a formação de especialistas, alerta a ANEM

O concurso nacional de acesso ao internato médico do presente ano registou um número incomum de vagas por preencher, um sinal que a Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) interpreta como mais um capítulo na crise de atratividade do Serviço Nacional de Saúde. Os dados, que apontam para o pior resultado anual da última década, não são um mero acidente estatístico. Espelham antes uma desilusão crescente que ameaça minar a formação dos futuros especialistas e, consequentemente, a própria solidez do sistema público.

Paulo Simões Peres, presidente da ANEM, não esconde a preocupação. “A maioria dos estudantes de Medicina gostaria de permanecer no SNS, mas a realidade atual leva muitos a considerar alternativas como a emigração”, afirma. Na sua leitura, este êxodo silencioso compromete de forma estrutural o amanhã. “Sem internos hoje, não teremos especialistas amanhã. Tornar o SNS mais atrativo é, por isso, um desafio estrutural urgente.” O raciocínio é linear, mas as suas implicações são vastas: investir na retenção e motivação dos médicos significa, em última análise, assegurar a qualidade da formação e a sustentabilidade do SNS para o futuro.

O problema, contudo, não se esgota nos números do concurso. Ele ramifica-se. A ausência de novos internos em determinados serviços, ano após ano, corrói a capacidade formativa do próprio sistema. São estes jovens médicos que, sob orientação, garantem parte significativa da atividade assistencial e cuja ausência sobrecarrega as equipas. Mas o prejuízo é duplo: sem eles, os próprios especialistas perdem um estímulo pedagógico crucial e os serviços veem comprometida a sua renovação natural. É um ciclo vicioso que se autoalimenta.

Entre as especialidades mais afetadas contam-se pilares fundamentais do sistema, como a Medicina Geral e Familiar e a Medicina Interna. Outras áreas, por vezes menos visíveis mas igualmente críticas para o funcionamento global, como a Patologia Clínica e a Saúde Pública, também não conseguiram captar todos os candidatos necessários. A geografia do défice não é uniforme. A Região de Lisboa e Vale do Tejo concentra uma fatia significativa destas vagas, um detalhe que revela assimetrias regionais profundas. Estas desigualdades territoriais condicionam não só o acesso dos cidadãos aos cuidados, mas também a experiência formativa dos que aceitam o internato, criando bolsas de maior pressão e desgaste.

O alerta da ANEM vai além do imediato. A crise de atratividade, insistem, não é um fenómeno confinado ao momento do concurso. Trata-se de um mal-estar que percorre toda uma carreira. Se não houver médicos suficientes a optar por permanecer no SNS após a especialidade, o sistema verá a sua capacidade de resposta definhar progressivamente. Serviços ficarão sob tensão, a formação de novas gerações de especialistas ficará comprometida e, num horizonte temporal mais alongado, a resposta às necessidades da população poderá entrar em colapso. O que está em jogo, portanto, não é apenas o preenchimento de umas quantas vagas num edital. É um sinal vital sobre a saúde do sistema que forma os seus próprios profissionais.

PR/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Portugal, no documento “O Estado da Saúde Cardiovascular na União Europeia”: Baixa Mortalidade, mas Fatores de Risco Persistem

O relatório da OCDE “O Estado da Saúde Cardiovascular na UE”, tornado público hoje, analisa os padrões da doença na Europa. Portugal surge com uma mortalidade por doenças circulatórias das mais baixas do continente, um sucesso que se manteve mesmo durante a pandemia. No entanto, o país ainda enfrenta desafios significativos, como a gestão da diabetes, o consumo de álcool e a mortalidade prematura, especialmente entre os homens

Doenças cardiovasculares custam 282 mil milhões de euros à União Europeia

A União Europeia enfrenta um desafio significativo com as doenças cardiovasculares (DCV), que continuam a ser a principal causa de morte e incapacidade no território comunitário. Um relatório recentemente divulgado, antecedendo o lançamento do Plano Corações Seguros, revela que estas doenças são responsáveis por um terço de todas as mortes anuais na UE e afetam mais de 60 milhões de pessoas.

Universidade Católica Portuguesa lança curso pioneiro em Medicina do Sono Pediátrico

A Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (FM-UCP) vai iniciar a primeira edição de um curso avançado dedicado ao estudo e prática clínica do sono na infância, uma formação pioneira em Portugal. O curso, que arranca a 16 de janeiro, será ministrado em formato b-learning e em inglês, com um carácter internacional.

Ordem dos Nutricionistas cria Fundo de Apoio à Formação para profissionais desempregados

A Ordem dos Nutricionistas lançou, pela primeira vez, um Fundo de Apoio à Formação destinado a apoiar os profissionais de nutrição que se encontrem em situação de desemprego. Esta iniciativa surge no âmbito do Dia do Nutricionista, celebrado a 14 de dezembro, e tem como objetivo possibilitar a aquisição de ferramentas que promovam uma prática profissional atualizada e baseada na evidência científica.

Doação de gâmetas: um gesto cada vez mais essencial para ajudar a construir famílias

A doação de gâmetas — óvulos e espermatozoides — assume hoje um papel crucial na concretização do sonho da parentalidade para centenas de pessoas em Portugal. As mudanças sociais, o adiamento da maternidade e paternidade e o aumento dos casos de infertilidade tornam este gesto altruísta cada vez mais necessário.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights