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O concurso nacional de acesso ao internato médico do presente ano registou um número incomum de vagas por preencher, um sinal que a Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) interpreta como mais um capítulo na crise de atratividade do Serviço Nacional de Saúde. Os dados, que apontam para o pior resultado anual da última década, não são um mero acidente estatístico. Espelham antes uma desilusão crescente que ameaça minar a formação dos futuros especialistas e, consequentemente, a própria solidez do sistema público.
Paulo Simões Peres, presidente da ANEM, não esconde a preocupação. “A maioria dos estudantes de Medicina gostaria de permanecer no SNS, mas a realidade atual leva muitos a considerar alternativas como a emigração”, afirma. Na sua leitura, este êxodo silencioso compromete de forma estrutural o amanhã. “Sem internos hoje, não teremos especialistas amanhã. Tornar o SNS mais atrativo é, por isso, um desafio estrutural urgente.” O raciocínio é linear, mas as suas implicações são vastas: investir na retenção e motivação dos médicos significa, em última análise, assegurar a qualidade da formação e a sustentabilidade do SNS para o futuro.
O problema, contudo, não se esgota nos números do concurso. Ele ramifica-se. A ausência de novos internos em determinados serviços, ano após ano, corrói a capacidade formativa do próprio sistema. São estes jovens médicos que, sob orientação, garantem parte significativa da atividade assistencial e cuja ausência sobrecarrega as equipas. Mas o prejuízo é duplo: sem eles, os próprios especialistas perdem um estímulo pedagógico crucial e os serviços veem comprometida a sua renovação natural. É um ciclo vicioso que se autoalimenta.
Entre as especialidades mais afetadas contam-se pilares fundamentais do sistema, como a Medicina Geral e Familiar e a Medicina Interna. Outras áreas, por vezes menos visíveis mas igualmente críticas para o funcionamento global, como a Patologia Clínica e a Saúde Pública, também não conseguiram captar todos os candidatos necessários. A geografia do défice não é uniforme. A Região de Lisboa e Vale do Tejo concentra uma fatia significativa destas vagas, um detalhe que revela assimetrias regionais profundas. Estas desigualdades territoriais condicionam não só o acesso dos cidadãos aos cuidados, mas também a experiência formativa dos que aceitam o internato, criando bolsas de maior pressão e desgaste.
O alerta da ANEM vai além do imediato. A crise de atratividade, insistem, não é um fenómeno confinado ao momento do concurso. Trata-se de um mal-estar que percorre toda uma carreira. Se não houver médicos suficientes a optar por permanecer no SNS após a especialidade, o sistema verá a sua capacidade de resposta definhar progressivamente. Serviços ficarão sob tensão, a formação de novas gerações de especialistas ficará comprometida e, num horizonte temporal mais alongado, a resposta às necessidades da população poderá entrar em colapso. O que está em jogo, portanto, não é apenas o preenchimento de umas quantas vagas num edital. É um sinal vital sobre a saúde do sistema que forma os seus próprios profissionais.
PR/HN



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