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A Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) prepara-se para liderar um esforço continental destinado a tornar as comunidades de energia renovável uma realidade mais acessível e menos burocrática. A Comissão Europeia aprovou e vai financiar com 5,4 milhões de euros o projeto INNO-TREC, uma iniciativa que promete devolver algum poder decisório aos cidadãos no emaranhado do sistema energético.
A ambição é clara: desenvolver um conjunto de ferramentas digitais gratuitas e intuitivas que guiem grupos de cidadãos, pequenas empresas ou autarquias em todo o processo de criação e gestão de uma Comunidade de Energia Renovável (CER). Estas coletividades, que produzem e partilham eletricidade principalmente através de centrais fotovoltaicas comunitárias, esbarram frequentemente em obstáculos que parecem insuperáveis para leigos. A complexidade jurídica, os custos iniciais avultados e a falta de apoio técnico acessível têm travado o seu potencial.
O INNO-TREC quer ser a chave para destrancar essa porta. A plataforma em desenvolvimento deverá apoiar todas as fases, desde os primeiros esboços legais e o dimensionamento técnico dos sistemas até à gestão do dia-a-dia e à otimização do desempenho. A meta é uma gestão tão simplificada que possa ser feita por qualquer utilizador, sem necessidade de conhecimentos especializados profundos.
O caminho até este financiamento não foi fácil. A call do Horizonte Europa onde o projeto se inseriu era das mais competitivas, com uma taxa de aceitação de apenas 3,9%. Entre 76 candidaturas, apenas três viram a luz verde, e a proposta liderada pela FEUP não só foi aprovada como recebeu a classificação máxima de 15 pontos. Nos relatórios dos avaliadores, circula a descrição informal de “projeto perfeito”, um reconhecimento raro que deixou a equipa portuguesa com uma mistura de orgulho e responsabilidade.
“Representa uma oportunidade única de dar um salto qualitativo no acesso dos cidadãos à energia renovável”, afirmam os professores coordenadores, João Catalão e Cláudio Monteiro, da FEUP. A dupla irá gerir o desenvolvimento científico ao longo dos próximos anos, num trabalho que arranca oficialmente em janeiro de 2026.
Para garantir que as soluções não são teóricas, o consórcio – que integra vinte parceiros académicos e industriais – vai testar as ferramentas em cenários reais de seis países: Grécia, Bélgica, Irlanda, Reino Unido, Itália e Portugal. Estas demonstrações práticas servirão para calibrar modelos de funcionamento e mecanismos de transação de energia, adaptando-os às especificidades de cada mercado local.
Há, contudo, uma dimensão que vai além do técnico. Os promotores do INNO-TREC acreditam que o projeto pode reforçar o tecido social, fomentando um espírito comunitário em torno de um objetivo comum e tangível. A ideia de autonomia energética ganha, assim, um contorno mais humano.
Esta é a segunda vez consecutiva que a FEUP conquista a liderança e a pontuação máxima num projeto europeu de energia de grande escala, depois do EU-DREAM. No total, os dois projetos mobilizam quase 10 milhões de euros, com cerca de 1,2 milhões a serem geridos diretamente pela instituição portuense.
O sucesso da candidatura deixa uma expectativa pesada sobre os ombros da equipa. Mas é esse mesmo peso que alimenta a convicção de que, dentro de alguns anos, formar uma comunidade para produzir e partilhar energia limpa poderá ser tão simples como criar um grupo numa rede social.
PR/HN



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